Um estudo publicado na Nature Medicine analisou dados de 16.812 noites de sono de 6.366 adultos, monitorados com sensores vestíveis, para entender como o sono influencia a saúde em 16 sistemas fisiológicos, incluindo metabolismo, sistema cardiovascular, microbioma e saúde mental. O resultado é um panorama amplo que conecta padrões de sono a envelhecimento, estilo de vida e risco de doenças.
Em vez de olhar apenas para “horas dormidas”, os pesquisadores avaliaram estruturas de sono, profundidade, apneia, variabilidade da frequência cardíaca e dezenas de outras características. A partir daí, mapearam milhares de associações com fatores clínicos, comportamentais e de estilo de vida, mostrando que o sono é, de fato, um marcador integrado da saúde geral.
Sono, envelhecimento e apneia do sono
Com o passar dos anos, o estudo mostrou uma redução de 0,13% a 0,14% no sono profundo por ano, acompanhada de aumento proporcional no sono leve. Essa mudança na arquitetura do sono faz parte do envelhecimento, mas ajuda a explicar por que muitas pessoas mais velhas relatam sono menos reparador, mesmo quando passam tempo semelhante na cama.
Os dados também revelaram um recorte importante de gênero na apneia obstrutiva do sono: cerca de 10% dos homens aos 40 anos já apresentam apneia, enquanto as mulheres atingem essa marca por volta dos 55 anos, possivelmente em relação a mudanças hormonais ligadas à menopausa. O estudo reforça que a obesidade, especialmente a gordura visceral, continua sendo o principal fator associado à apneia, destacando a perda de peso como componente central do tratamento.
Estilo de vida: o fator que mais pesa na qualidade do sono
Ao cruzar características do sono com hábitos e perfil clínico, os autores identificaram mais de 12.400 associações significativas envolvendo uso de televisão, tabagismo, composição corporal e outros fatores. O resultado mais impressionante foi que o estilo de vida apareceu como o fator mais relevante para a qualidade do sono, superando idade, IMC e gordura visceral em vários modelos.
Isso significa que escolhas diárias – horário de exposição à luz, consumo de álcool e nicotina, nível de atividade física, rotina alimentar e uso de telas – podem ter impacto maior na qualidade do sono do que características fixas, como idade cronológica. O estudo também ajuda a desmistificar a ideia de que todos precisam dormir exatamente 8 horas: há variabilidade individual, e a “quantidade ideal” de sono varia entre pessoas.
Sono, doenças e diferenças entre homens e mulheres
Entre as associações com doenças, o estudo encontrou padrões distintos por sexo. Em mulheres, alterações de sono estiveram mais ligadas a hipertensão, osteopenia e pré-diabetes. Em homens, as correlações foram mais fortes com alergias e dores nas costas, sugerindo que o impacto do sono sobre a saúde pode se expressar de forma diferente em cada grupo.
A variabilidade da frequência cardíaca durante o sono também mostrou associações relevantes: em homens, foi relacionada a hipertensão e dermatite atópica; em mulheres, a osteoporose, ansiedade e asma. Algumas ligações esperadas – como entre sono e saúde renal ou microbioma – apareceram mais fracas, lembrando que nem toda hipótese intuitiva se confirma quando exposta a grandes bancos de dados.
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação individualizada ou orientação de profissionais de saúde.
Do sono à medicina personalizada
No conjunto, o trabalho mostra que sono, metabolismo, pressão arterial, saúde óssea, inflamação e saúde mental estão fortemente interligados, e que o monitoramento detalhado do sono pode ajudar a personalizar estratégias de prevenção e tratamento. Pesquisadores acreditam que essas descobertas podem orientar abordagens mais finas para melhorar a qualidade do sono e, ao mesmo tempo, reduzir o risco de doenças cardiometabólicas, psiquiátricas e osteometabólicas.
Para o médico, interpretar laudos de polissonografia, dados de dispositivos vestíveis e queixas subjetivas de sono à luz desse tipo de evidência é um passo importante rumo à medicina de precisão, que considera não só genes e exames laboratoriais, mas também o padrão de sono como um sinal vital a ser incorporado na prática clínica.
Referência científica
Artigo original em Nature Medicine.
DOI: 10.1038/s41591-024-03481-x.
Assista em vídeo: sono, múltiplos sistemas do corpo e saúde
Sono, genômica e medicina de precisão
À medida que dispositivos vestíveis e estudos genômicos se tornam mais acessíveis, o sono deixa de ser apenas um sintoma relatado em consulta para se tornar um fenótipo mensurável, com dados contínuos que dialogam com genética, metabolismo e risco de doenças. Integrar essas informações é um dos caminhos da medicina personalizada, foco do trabalho da Geneaxis na interface entre genômica, clínica e estilo de vida.
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Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


