supercentenários brasileiros e genética da longevidade.

Brasileiros que passam dos 110 anos: por que a ciência está olhando para o DNA do país

Brasileiros que passam dos 110 anos – os chamados supercentenários – estão começando a chamar a atenção da ciência mundial. Imagine chegar a essa idade com a mente afiada, atravessar infecções graves e ainda ter outros parentes que também viveram muito. Esses casos raríssimos sugerem não apenas a ausência de doenças, mas uma forma de resiliência biológica, como se algumas pessoas tivessem combinações genéticas e histórias de vida que favorecem a manutenção do corpo e defesas mais eficientes ao longo do tempo.

No Brasil, esse tema ganha um ingrediente extra: a enorme diversidade genética. Por aqui circulam inúmeras variantes que quase não aparecem nos grandes bancos internacionais de DNA. Em vez de enxergar o envelhecimento apenas como “desgaste”, os supercentenários brasileiros abrem espaço para outra narrativa: a de que existem caminhos biológicos de envelhecimento saudável, que podem ser mapeados e, no futuro, inspirar estratégias mais inteligentes de prevenção e cuidado ao longo da vida.

Por que o DNA de supercentenários brasileiros interessa à ciência?

Um artigo de opinião científica (Viewpoint) assinado por Mayana Zatz e colaboradores, do Centro de Pesquisa do Genoma Humano e Células-Tronco da USP, discute justamente por que estudar supercentenários brasileiros pode acelerar descobertas sobre envelhecimento saudável. A mensagem central não é a busca por um “gene da juventude”, mas a tentativa de identificar padrões combinados: variantes genéticas, perfis inflamatórios, histórico de infecções, contexto socioambiental e estilo de vida que, em conjunto, ajudem a explicar por que alguns organismos resistem melhor ao tempo.

Como a população brasileira é altamente miscigenada, ela carrega assinaturas genéticas únicas, pouco representadas nos grandes biobancos de países de alta renda. Isso significa que olhar para supercentenários no Brasil não é apenas adicionar novos casos a uma lista, mas incorporar novos tipos de variação genética à conversa global sobre longevidade, com potencial de revelar mecanismos que ainda não foram descritos em outras populações.

Longevidade extrema: além do “gene da juventude”

O Viewpoint reforça que a busca não é por um único gene milagroso, mas por combinações protetoras e trajetórias de vida. Entre os aspectos de interesse estão: como esses indivíduos respondem a infecções ao longo da vida, quais doenças eles não desenvolvem (ou desenvolvem mais tarde), como se mantêm cognitivamente preservados e quais fatores ambientais e sociais se somam ao componente genético.

A ideia é que, ao entender melhor esses casos de exceção, seja possível identificar caminhos biológicos de proteção – por exemplo, variantes que modulam inflamação crônica, reparo de DNA, resposta imune ou metabolismo – que possam inspirar o desenvolvimento de terapias, marcadores de risco e novas formas de estratificar pacientes ao longo do envelhecimento.

Do genoma à saúde pública e à medicina personalizada

Se conseguirmos traduzir o que diferencia esses supercentenários – tanto no DNA quanto na trajetória de vida – abre-se a possibilidade de desenhar estratégias de prevenção mais inteligentes para o restante da população. Isso inclui desde políticas de saúde pública que considerem o impacto de determinantes sociais e ambientais até abordagens de medicina de precisão, que integrem genética, hábitos e contexto individual na tomada de decisão clínica.

Nesse cenário, o Brasil deixa de ser visto apenas como um país com grande carga de doenças e passa a ser um laboratório vivo de diversidade, capaz de contribuir com respostas globais sobre como envelhecer melhor. Estudar supercentenários brasileiros é, em última análise, uma forma de olhar para o futuro da longevidade humana com mais nuances, inclusão e representatividade.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação individualizada ou orientação de profissionais de saúde.

Referência científica

Artigo de opinião (Viewpoint) em Genetics and Population.
DOI: 10.61373/gp026v.0009.

Assista em vídeo: supercentenários brasileiros e genética da longevidade

Longevidade extrema, genômica e o papel da Geneaxis

Casos de longevidade extrema mostram como genética, ambiente e história de vida se entrelaçam. Na prática, esse é o mesmo raciocínio que fundamenta a medicina de precisão: integrar dados de DNA, contexto clínico e estilo de vida para oferecer cuidado mais individualizado. Ao acompanhar esse tipo de pesquisa, médicos e profissionais de saúde ampliam o repertório para interpretar risco, orientar famílias e planejar intervenções ao longo do envelhecimento.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.