desastre de Mariana e metais pesados – risco em bananas e alimentos do Rio Doce.

Bananas com metais tóxicos: como o desastre de Mariana ainda pode chegar ao prato e por que crianças são as mais vulneráveis

Dez anos depois do rompimento da barragem de Fundão (Mariana, 2015), a lama da mineração ainda pode deixar rastros bem menos óbvios do que a água barrenta: ela pode entrar na cadeia alimentar. Um estudo com amostras do estuário do Rio Doce, em Linhares (ES), avaliou banana, mandioca e polpa de cacau cultivadas em solos atingidos por rejeitos e encontrou metais potencialmente tóxicos, como chumbo e cádmio, passando do solo para as partes comestíveis das plantas. A equipe mostrou que esse “caminho” tem relação com os óxidos de ferro do rejeito, que carregam esses elementos e facilitam sua transferência para a água e, depois, para a planta.

Na prática, o que fica claro é que o desastre de Mariana e metais pesados continuam conectados: mesmo quando a lama não é mais visível, o risco pode persistir no solo, nas águas e nos alimentos produzidos em áreas contaminadas, especialmente quando não há monitoramento contínuo nem recuperação adequada do ambiente.

Como os metais saem da lama e chegam à banana, mandioca e cacau

O estudo analisou o solo, a água e as plantas em áreas do estuário do Rio Doce afetadas pelos rejeitos. Os autores mostraram que:

• Os rejeitos ricos em óxidos de ferro podem “carregar” chumbo, cádmio e outros metais;
• Esses óxidos funcionam como uma espécie de transportador, facilitando a passagem dos metais para a água do solo;
• A partir daí, os metais podem ser absorvidos pelas raízes de culturas como banana, mandioca e cacau e se acumular nas partes comestíveis.

O resultado reforça que a contaminação não é apenas um problema “visual” da lama ou uma questão restrita à água para consumo direto: o alimento produzido em áreas impactadas também precisa entrar no radar de vigilância e de políticas públicas.

Por que crianças são as mais vulneráveis aos metais tóxicos

O recorte mais sensível da pesquisa foi o de crianças de até 6 anos. A avaliação de risco apontou que o consumo de bananas cultivadas nessas áreas pode representar preocupação maior nesse grupo, enquanto, em adultos, o risco imediato estimado foi menor — embora os autores destaquem o potencial de efeitos cumulativos ao longo da vida.

Alguns motivos pelos quais crianças são mais vulneráveis a metais pesados:

• Elas têm menor peso corporal, então a mesma quantidade de metal por dia significa uma dose maior por quilo de peso;
• O sistema nervoso e outros órgãos ainda estão em desenvolvimento, o que aumenta o risco de impacto em cognição, crescimento e comportamento;
• Elas podem ter dieta mais restrita e consumir com frequência os mesmos alimentos (como banana), ampliando a exposição crônica.

Por isso, mesmo em situações em que os níveis médios não disparem alarmes imediatos para adultos, o cuidado com a saúde infantil precisa ser ainda mais rigoroso, com atenção à origem dos alimentos e às condições ambientais de produção.

Do solo ao prato: o que esse estudo ensina sobre saúde ambiental

O trabalho reforça que a discussão sobre o desastre de Mariana não termina quando a água clareia. Ele mostra que:

• É preciso monitorar alimentos cultivados em áreas impactadas por rejeitos;
• Políticas de rastreabilidade e de apoio a produtores locais são essenciais para garantir segurança alimentar a quem vive na região;
• Programas de recuperação ambiental e de vigilância em saúde precisam considerar exposição crônica e cumulativa, não apenas eventos agudos logo após o desastre.

O estudo também chama atenção para a importância de integrar ciência, saúde pública e políticas ambientais: entender como metais tóxicos circulam entre solo, água, planta e ser humano é fundamental para planejar intervenções que realmente protejam as comunidades atingidas.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliações ambientais, sanitárias ou decisões regulatórias. A gestão de áreas contaminadas e a segurança de alimentos devem seguir normas técnicas e diretrizes de órgãos de saúde e meio ambiente.

Referência científica

Artigo original em periódico de Environmental Geochemistry and Health.
DOI: 10.1007/s10653-025-02770-9.

Assista em vídeo: metais tóxicos, Rio Doce e saúde infantil

Mineração, metais pesados e saúde pública

Casos como o do Rio Doce mostram como metais pesados podem ser o elo silencioso entre desastres ambientais e doenças crônicas, especialmente em populações vulneráveis como crianças. Integrar saúde ambiental, genômica, epidemiologia e políticas de segurança alimentar é essencial para sair da lógica de apagar incêndios e caminhar para uma prevenção baseada em evidências — da barragem ao prato.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.