nicotina no pai e filhos pode alterar o metabolismo da próxima geração.

O cigarro pode “viajar” para a próxima geração? Nicotina no pai muda o metabolismo dos filhos em estudo com animais

A gente costuma falar do tabagismo pensando na mãe durante a gestação, mas um estudo novo colocou o pai no centro da história. Pesquisadores administraram nicotina pura na água para camundongos machos e depois avaliaram os filhotes. Mesmo sem diferença de peso na infância, os descendentes nasceram com um metabolismo “reprogramado”: as fêmeas apresentaram insulina mais baixa e glicose em jejum mais baixa, além de sinais de que o tecido adiposo estava mais “pronto” para puxar glicose do sangue; já os machos mostraram alterações hormonais e um perfil hepático sugerindo maior dificuldade para lidar com períodos de jejum e adaptação energética.

Em outras palavras, o corpo dos filhotes estava funcionando de um jeito diferente desde cedo — e isso pode influenciar o risco metabólico ao longo da vida. O ponto mais importante é que esse efeito apareceu mesmo com nicotina isolada, sem as demais toxinas do cigarro convencional, o que levanta preocupação não só com cigarro, mas também com vapes, pods e pouches.

O que a nicotina no pai mudou nos filhotes

O estudo mostrou que a exposição do pai à nicotina antes da concepção pode deixar marcas biológicas mensuráveis na geração seguinte. Entre os principais achados:

• Nas fêmeas, houve níveis menores de insulina e glicose em jejum, além de sinais de maior captação de glicose pelo tecido de gordura;
• Nos machos, apareceram alterações hormonais e indícios de um fígado menos eficiente para responder a períodos de jejum e ajustes energéticos;
• Apesar de o peso corporal não estar diferente no início, o funcionamento metabólico já parecia alterado.

Isso é relevante porque mostra que mudanças importantes no metabolismo podem existir mesmo antes de sinais visíveis como obesidade ou alteração importante de peso aparecerem.

Como isso poderia acontecer?

A interpretação dos autores é que exposições do pai antes da concepção podem deixar marcas biológicas nos espermatozoides ou em mecanismos regulatórios relacionados à herança, ajustando o metabolismo da próxima geração. Esse tipo de hipótese se encaixa bem no campo da epigenética, que estuda como fatores ambientais podem alterar a forma como genes são regulados sem mudar a sequência do DNA em si.

Ainda não dá para afirmar que o mesmo acontece em humanos da mesma maneira, mas a ideia é biologicamente plausível e importante: a saúde reprodutiva do homem pode influenciar mais do que se imaginava o metabolismo dos filhos, mesmo antes da gravidez começar.

Isso vale para humanos?

Ainda não é possível dizer isso com certeza. O estudo foi feito em camundongos, e resultados em animais não devem ser automaticamente transferidos para humanos. Mas o trabalho tem um peso importante porque isolou a nicotina, sem a mistura de milhares de outras substâncias presentes no cigarro.

Isso faz com que a mensagem preventiva seja ainda mais relevante: não estamos falando apenas de cigarro tradicional, mas também de produtos que muita gente encara como “menos perigosos”, como vapes e pods. Se a nicotina, por si só, já é capaz de alterar vias biológicas importantes em modelos animais, vale levar essa possibilidade a sério quando pensamos em pré-concepção e planejamento familiar.

O que fica de mensagem prática

A principal lição do estudo é preventiva: se a ideia é ter filhos, parar nicotina antes de tentar engravidar pode ser um cuidado não só com a própria saúde, mas também com o futuro da família. Isso reforça uma visão mais ampla de saúde reprodutiva, em que o “pré-natal” começa antes da gestação e inclui também o homem.

Os autores defendem estudos de longo prazo para entender se essas alterações metabólicas observadas na prole acabam se convertendo em doença com o tempo. Até lá, o dado mais útil é este: quando falamos em planejamento reprodutivo, vale incluir a exposição a nicotina — em qualquer forma — como um fator relevante a ser discutido.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Pessoas que desejam interromper cigarro, vape, pod ou outros produtos com nicotina devem procurar orientação profissional para uma estratégia segura e eficaz.

Referência científica

Artigo original em Journal of the Endocrine Society.
DOI: 10.1210/jendso/bvag033

Assista em vídeo: nicotina no pai e metabolismo dos filhos

Pré-concepção, epigenética e medicina de precisão

Esse estudo reforça uma mudança importante na medicina: a saúde reprodutiva não começa na gestação, e nem envolve apenas a mãe. Fatores do pai antes da concepção também podem influenciar a próxima geração. Isso aproxima o tema da medicina de precisão e da epigenética, mostrando como ambiente, estilo de vida e exposições químicas podem dialogar com a biologia de forma mais profunda do que imaginávamos.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.