sensor de gases intestinais acoplado à roupa íntima.

“Smart underwear”: a cueca inteligente que mediu gases e mostrou que a gente solta bem mais do que imagina

Se falar de gases ainda é tabu, a ciência acabou de transformar isso em dado de verdade. Pesquisadores da Universidade de Maryland criaram um sensor que encaixa na roupa íntima e mede, ao longo do dia, o hidrogênio liberado nos gases — um gás produzido pelos microrganismos do intestino quando fermentam fibras e outros alimentos. Em testes com adultos saudáveis, a média foi de 32 episódios por dia, com pessoas indo de 4 até 59 episódios, cerca do dobro do número clássico que aparece em muitos livros.

Isso aconteceu porque, até hoje, boa parte das estimativas dependia de anotação manual ou de exames muito pontuais, que não capturam a vida real. Com o novo dispositivo, a medição fica contínua e mais próxima do cotidiano. O achado é curioso, mas também cientificamente relevante: talvez o que chamamos de “normal” para gases intestinais seja muito mais amplo e variável do que se imaginava.

O que essa “cueca inteligente” mede de fato

O sensor foi desenhado para detectar hidrogênio, um dos gases produzidos quando o microbioma intestinal fermenta carboidratos e fibras no intestino. Isso transforma a tecnologia em algo mais útil do que uma simples curiosidade: ela se torna uma janela indireta para observar o que o intestino e seus microrganismos estão fazendo ao longo do dia.

Em vez de uma fotografia única, o dispositivo oferece um filme contínuo do padrão de fermentação intestinal. Isso pode ajudar a entender melhor como dieta, fibras, prebióticos e até hábitos do dia a dia influenciam o comportamento do microbioma em tempo real.

Muito além do constrangimento: uma ferramenta para estudar o microbioma

O mais interessante é que isso não serve apenas para “contar pum”. O estudo mostrou que acompanhar hidrogênio ao longo do tempo pode revelar como o intestino responde a mudanças alimentares. Quando os participantes ingeriram inulina, uma fibra prebiótica, o sensor detectou o aumento do hidrogênio com 94,7% de sensibilidade.

Isso sugere que a tecnologia pode virar uma ferramenta promissora para:

• acompanhar respostas do microbioma à dieta;
• estudar tolerância a fibras e prebióticos;
• mapear padrões fisiológicos normais de fermentação intestinal;
• futuramente ajudar na avaliação de distúrbios gastrointestinais relacionados a gases e fermentação.

O que é o Human Flatus Atlas Study?

Com base nesses resultados, a equipe quer expandir o projeto para criar o Human Flatus Atlas, um atlas que pretende mapear padrões considerados “normais” em centenas de pessoas. A proposta é importante porque, até agora, a ciência tinha poucos dados reais e contínuos sobre esse tema. Se esse banco crescer, ele pode ajudar a definir melhor o que é variação fisiológica normal e o que pode sinalizar alterações do microbioma ou da digestão.

Para participar do estudo, os pesquisadores disponibilizaram uma página do projeto: Human Flatus Atlas Study.

Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui avaliação médica. Sintomas gastrointestinais persistentes, dor abdominal, distensão importante, alteração do hábito intestinal ou intolerância alimentar devem ser avaliados por profissional de saúde.

Referência científica

Artigo original em Biosensors and Bioelectronics: X.
DOI: 10.1016/j.biosx.2025.100699

Assista em vídeo: a “cueca inteligente” que mede gases intestinais

Microbioma, wearables e medicina de precisão

Esse estudo mostra como os wearables podem sair do pulso e chegar a áreas inesperadas da saúde. Ao transformar um fenômeno cotidiano em dado contínuo, a tecnologia abre novas possibilidades para estudar microbioma, fermentação intestinal e resposta individual à dieta. Isso se conecta diretamente à medicina de precisão: entender como cada organismo reage, em tempo real, ao que come e ao que seus microrganismos produzem.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.