Pimenta e possível associação com câncer de esôfago em estudos observacionais

Pimenta aumenta o risco de câncer de esôfago? Entenda o que os estudos mostram

Resumo do tema: uma metanálise de estudos observacionais encontrou associação entre o consumo elevado de pimenta e maior chance de alguns cânceres do trato gastrointestinal, especialmente o câncer de esôfago. O resultado, porém, não prova que a pimenta seja a causa do câncer e não permite definir uma quantidade segura ou prejudicial.

Transcrição revisada

A pimenta faz parte da alimentação de bilhões de pessoas e contém capsaicina, substância responsável pela sensação de ardência. Em estudos laboratoriais e experimentais, a capsaicina já foi relacionada a diferentes efeitos biológicos, incluindo ações anti-inflamatórias e antitumorais. Entretanto, os resultados das pesquisas em seres humanos ainda são contraditórios.

Uma metanálise publicada na Frontiers in Nutrition reuniu 14 estudos caso-controle, com 11.310 participantes, para investigar a relação entre o consumo de pimenta e cânceres do trato gastrointestinal. Comparadas às pessoas que consumiam menos pimenta ou não a consumiam, aquelas classificadas nos grupos de maior consumo apresentaram maior chance de câncer gastrointestinal no conjunto da análise.

A associação mais forte apareceu para o câncer de esôfago: os maiores consumidores apresentaram odds 2,71 vezes maiores do que os participantes dos grupos de menor consumo. Não foi observada associação estatisticamente significativa com câncer gástrico ou colorretal.

Isso não significa que a pimenta cause câncer. Os estudos eram observacionais, apresentavam diferenças importantes entre populações e não permitiram estabelecer uma relação clara entre dose e risco. A mensagem mais adequada não é eliminar toda pimenta da alimentação, mas reconhecer que os efeitos podem depender da quantidade consumida, do padrão alimentar e de outros fatores individuais.

O que a metanálise encontrou

Os pesquisadores analisaram 14 estudos caso-controle que avaliaram o consumo de pimenta em adultos com e sem câncer gastrointestinal. No total, foram incluídos 11.310 participantes, dos quais 5.009 apresentavam algum dos cânceres estudados.

Na comparação entre as categorias de maior e menor consumo, a análise conjunta encontrou odds 64% maiores de câncer gastrointestinal. Esse resultado ficou no limite da significância estatística e apresentou grande variação entre os estudos.

Quando os cânceres foram analisados separadamente, o resultado mais evidente apareceu no esôfago: o consumo elevado foi associado a odds 2,71 vezes maiores de câncer de esôfago. Para câncer gástrico e câncer colorretal, as associações não foram estatisticamente significativas.

Associação não significa que a pimenta cause câncer

Todos os estudos incluídos eram caso-controle. Nesse tipo de pesquisa, os cientistas comparam exposições anteriores entre pessoas com uma doença e pessoas sem a doença. Esse método é útil para identificar associações, mas está sujeito a limitações importantes.

O consumo de pimenta foi estimado principalmente por questionários, o que pode gerar erros de memória e de classificação. Além disso, pessoas que consomem muita pimenta podem diferir em diversos outros aspectos, como alimentação, consumo de álcool, tabagismo, condições socioeconômicas, presença de refluxo e exposição a agentes infecciosos.

A heterogeneidade entre os estudos também foi muito alta. Em algumas regiões, o consumo elevado apareceu associado a maior chance de câncer gastrointestinal; em outras, foi observada uma associação inversa. Isso indica que tipo de pimenta, preparo dos alimentos, quantidade consumida e características da população podem modificar os resultados.

Capsaicina, irritação e dose: o que ainda não sabemos

A capsaicina ativa o receptor TRPV1, envolvido na percepção de calor, ardência e dor. Os autores discutem a possibilidade de que exposições muito elevadas possam influenciar a mucosa do esôfago e determinadas vias celulares. Entretanto, esse mecanismo ainda não foi comprovado como causa de câncer em pessoas.

Estudos experimentais também encontraram possíveis efeitos antitumorais da capsaicina. Essa aparente contradição pode estar relacionada à dose, ao tecido analisado, ao tempo de exposição e às diferenças entre experimentos laboratoriais e consumo alimentar no mundo real.

A metanálise não conseguiu realizar uma análise adequada de dose e resposta. Portanto, ela não informa quantas pimentas, gramas ou refeições por semana representariam consumo elevado. Também não permite concluir que pequenas quantidades tenham o mesmo efeito observado nas categorias de maior consumo.

É necessário parar de comer pimenta?

Os estudos não sustentam a recomendação de que todas as pessoas eliminem a pimenta da alimentação. O sinal de alerta se concentra no consumo classificado como elevado, mas a quantidade correspondente variou entre as pesquisas e ainda não existe um limite universal baseado nesses dados.

Pessoas com refluxo, queimação, dor ao engolir ou desconforto gastrointestinal podem perceber piora individual dos sintomas com alimentos muito picantes. Nesses casos, a alimentação deve ser ajustada conforme tolerância e orientação profissional.

Para a prevenção do câncer, fatores com evidência mais estabelecida continuam sendo evitar o tabagismo, moderar ou evitar bebidas alcoólicas, manter peso saudável, ter alimentação equilibrada e investigar sintomas persistentes. O histórico pessoal e familiar também deve ser considerado na avaliação individual.

FAQ rápida

Pimenta causa câncer de esôfago?
O estudo não demonstrou causalidade. Ele encontrou uma associação entre as categorias de maior consumo e maior chance de câncer de esôfago.

O risco foi realmente três vezes maior?
A metanálise encontrou odds 2,71 vezes maiores. Como os estudos eram caso-controle, esse número não deve ser interpretado diretamente como risco absoluto três vezes maior.

Qual quantidade de pimenta seria prejudicial?
Ainda não existe uma resposta precisa. As pesquisas utilizaram definições diferentes de consumo elevado e não permitiram estabelecer um limite seguro.

É necessário eliminar a pimenta da alimentação?
Não com base nesses estudos. A recomendação mais prudente é evitar exageros e considerar a tolerância individual e o padrão alimentar completo.

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Alimentação e estilo de vida são apenas parte do risco de câncer. Tumores em idade jovem, vários familiares afetados ou determinados padrões de câncer podem indicar a necessidade de uma avaliação genética individualizada.

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Referências científicas:
Association between chili pepper consumption and risk of gastrointestinal-tract cancers: a meta-analysis
Spicy Food and Chili Peppers and Multiple Health Outcomes: Umbrella Review

Este conteúdo tem caráter educativo e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada.

Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.