sobreviventes de câncer e envelhecimento acelerado no cérebro.

O corpo pode estar “envelhecendo mais rápido” em quem venceu a luta contra o câncer

Sobreviver a um câncer na infância ou na adolescência é uma vitória enorme, mas um estudo de grande porte acendeu um alerta importante: alguns sobreviventes parecem carregar, anos depois, sinais de idade biológica maior do que a idade cronológica, como se o organismo tivesse envelhecido mais rápido. Pesquisadores analisaram sangue e desempenho cognitivo de 1.413 sobreviventes, comparados a 282 pessoas sem histórico de câncer, e encontraram marcas de envelhecimento acelerado no nível celular, acompanhadas de dificuldades mais frequentes em funções como atenção, velocidade de raciocínio, memória e planejamento.

A mensagem central não é que todo sobrevivente desenvolverá demência ou perda cognitiva importante, mas que pode existir, em parte desse grupo, um empurrão precoce no relógio biológico. Isso reforça a necessidade de olhar para o sobrevivente de câncer não apenas como alguém “curado”, mas como alguém que pode se beneficiar de acompanhamento de longo prazo, prevenção e estratégias para preservar função cerebral e qualidade de vida.

Envelhecimento acelerado após o câncer: o que o estudo encontrou

O trabalho mostrou que sobreviventes de câncer na infância e adolescência apresentavam, com mais frequência, sinais biológicos compatíveis com envelhecimento acelerado. Essas marcas apareceram associadas a pior desempenho em testes cognitivos que avaliam:

Atenção;
Velocidade de processamento e raciocínio;
Memória;
Planejamento e funções executivas.

Em outras palavras, o estudo sugere que o organismo de alguns sobreviventes pode carregar uma espécie de “custo biológico” tardio do tratamento oncológico, visível tanto em marcadores do sangue quanto no funcionamento cognitivo.

Não foi só em quem tratou o cérebro: a quimioterapia teve papel importante

Um ponto importante do estudo é que esse envelhecimento acelerado não apareceu apenas em quem recebeu tratamento direto no sistema nervoso central. Os sinais também foram observados em pessoas tratadas por cânceres fora do cérebro, o que sugere um efeito mais amplo da terapia sobre o organismo.

Entre os fatores analisados, a quimioterapia apareceu como uma das principais associadas à aceleração desse processo, provavelmente por provocar danos difusos em células e tecidos. Isso não significa que a quimioterapia “não valha a pena” — ao contrário, ela salva vidas e continua sendo essencial em muitos contextos —, mas mostra que o sucesso do tratamento precisa vir acompanhado de uma visão mais ampla sobre os efeitos tardios na saúde do sobrevivente.

O que isso significa na prática para sobreviventes de câncer

O estudo não diz que todo sobrevivente terá declínio cognitivo grave, mas indica que parte desse grupo pode ter maior vulnerabilidade a um envelhecimento cognitivo precoce. Isso torna ainda mais importante:

Acompanhamento a longo prazo após o fim do tratamento;
• Atenção a queixas de memória, atenção e lentificação;
• Estratégias de reabilitação cognitiva, quando necessário;
• Monitoramento de fatores de risco modificáveis que podem influenciar o cérebro e o envelhecimento.

Há também uma notícia importante no horizonte: os autores destacam que hábitos como atividade física, cessação do tabagismo e melhora da alimentação podem, em tese, ajudar a desacelerar parte dessas marcas biológicas. Ou seja, mesmo quando o tratamento já terminou, ainda existe espaço para prevenção, reabilitação e cuidado contínuo.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação individual. Sobreviventes de câncer com queixas cognitivas, fadiga persistente, alterações de humor ou dificuldades funcionais devem ser avaliados por equipe médica adequada, com abordagem multiprofissional quando necessário.

Referência científica

Artigo original em Nature Communications.
DOI: 10.1038/s41467-025-65664-5.

Assista em vídeo: envelhecimento acelerado após câncer na infância

Sobrevivência, cérebro e medicina de precisão

Esse estudo reforça uma mudança importante na oncologia moderna: não basta pensar apenas em cura, mas também em como a pessoa vai envelhecer depois do tratamento. Integrar marcadores biológicos de envelhecimento, avaliação cognitiva e fatores modificáveis de estilo de vida aproxima o cuidado do conceito de medicina de precisão, em que o acompanhamento do sobrevivente é ajustado ao risco individual e à história terapêutica de cada paciente.

Veja também este conteúdo nas redes da Geneaxis

• Instagram: ver publicação

• YouTube: assistir ao Short

• LinkedIn: ver post científico

• X: ver publicação em X

• TikTok: ver vídeo no TikTok

Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.