Sono irregular e aumento do risco de eventos cardiovasculares em adultos de meia-idade

Horário irregular para dormir pode dobrar o risco cardiovascular, mostra estudo

Resumo do tema: um estudo finlandês com 3.231 adultos acompanhados por mais de dez anos encontrou cerca do dobro do risco de eventos cardiovasculares maiores entre pessoas com horários de dormir muito irregulares e período de sono inferior a aproximadamente oito horas. A associação apareceu para a variabilidade do horário de dormir e do ponto médio do sono, mas não para o horário de acordar. O estudo é observacional e não demonstra causalidade.

Transcrição revisada

Dormir tarde de vez em quando provavelmente não é o principal problema. O que começa a chamar a atenção da ciência é outra característica: mudar constantemente o horário em que dormimos.

Um estudo da University of Oulu, na Finlândia, acompanhou 3.231 adultos de 46 anos durante mais de dez anos e avaliou se a regularidade dos horários de sono estava relacionada ao risco cardiovascular futuro.

Os pesquisadores observaram um resultado importante: entre as pessoas cujo período habitual de sono era de até aproximadamente 7 horas e 56 minutos, aquelas com horários de dormir mais irregulares apresentaram cerca de duas vezes mais risco de um evento cardiovascular maior.

Esses eventos incluíam infarto agudo do miocárdio, angina instável, acidente vascular cerebral, hospitalização por insuficiência cardíaca ou morte por doença cardiovascular.

Curiosamente, o fator associado ao risco não foi simplesmente acordar em horários diferentes. A associação apareceu principalmente para a irregularidade da hora de dormir e para a variação do ponto médio do período de sono.

A diferença de rotina era considerável. No grupo mais regular, o horário de dormir variava tipicamente em torno de meia hora. No grupo mais irregular, essa variabilidade chegava próximo de duas horas.

Uma possível explicação envolve nosso ritmo circadiano, o sistema biológico que coordena sono, pressão arterial, metabolismo, secreção hormonal e diferentes funções cardiovasculares ao longo das 24 horas.

O estudo não prova, porém, que dormir sempre no mesmo horário previna infarto ou AVC. Ele mostra uma associação observacional. A mensagem mais cuidadosa é que, além da duração do sono, a regularidade da rotina pode ser mais um componente relevante da saúde cardiovascular.

Mais de 3 mil pessoas acompanhadas por uma década

Os participantes faziam parte da Northern Finland Birth Cohort 1966, uma grande coorte populacional acompanhada desde o nascimento.

Entre 2012 e 2014, quando tinham aproximadamente 46 anos, eles receberam um monitor de atividade baseado em acelerometria para ser utilizado no punho durante 14 dias consecutivos.

Um algoritmo identificava períodos prolongados de baixa atividade e estimava três parâmetros principais:

• horário de início do período de sono;
• horário de término do período de sono;
• ponto médio entre esses dois horários.

A regularidade foi calculada a partir da variação desses horários durante sete dias consecutivos, incluindo dias úteis e final de semana.

Os participantes foram então divididos em três grupos: mais regulares, intermediários e mais irregulares.

No grupo de horário de dormir mais regular, a variabilidade mediana foi de aproximadamente 33 minutos. No grupo intermediário, 59 minutos. Entre os mais irregulares, chegou a aproximadamente 108 minutos.

Depois dessa avaliação, registros nacionais de saúde foram utilizados para acompanhar os participantes até o final de 2023.

Durante o acompanhamento, 128 pessoas — cerca de 4% da amostra — apresentaram um evento cardiovascular maior.

O “dobro do risco” apareceu apenas em quem tinha menos de 8 horas de período de sono

Esse é o detalhe mais importante para interpretar corretamente o estudo.

A mediana do período de sono da população era de 7 horas e 56 minutos. Por isso, os pesquisadores analisaram separadamente aqueles que ficavam abaixo ou acima desse valor.

Entre os 1.614 participantes com período de sono de até 7h56, aqueles classificados no grupo de horários de dormir mais irregulares apresentaram:

• aproximadamente 2,01 vezes o risco de eventos cardiovasculares maiores em comparação com o grupo mais regular;
• aproximadamente 2,00 vezes o risco quando considerada a irregularidade do ponto médio do sono.

A associação permaneceu depois de ajustes para fatores como sexo, situação ocupacional, índice de massa corporal, pressão arterial sistólica, hemoglobina glicada, colesterol LDL e atividade física.

Já a irregularidade do horário de acordar não apresentou associação estatisticamente significativa.

Entre as pessoas com período de sono acima de 7h56, também não foi identificada associação significativa entre irregularidade dos horários e eventos cardiovasculares.

Portanto, “horário irregular dobra o risco de infarto” seria uma simplificação excessiva. O resultado foi aproximadamente o dobro do risco de um conjunto de eventos cardiovasculares, exclusivamente no subgrupo cujo período de sono era inferior a aproximadamente oito horas.

Por que a regularidade do sono poderia afetar o coração?

O organismo humano apresenta um sistema interno de temporização conhecido como ritmo circadiano.

Esse relógio biológico ajuda a coordenar dezenas de processos ao longo das 24 horas, incluindo sono e vigília, temperatura corporal, liberação hormonal, metabolismo da glicose, frequência cardíaca e pressão arterial.

Quando horários de sono, alimentação, atividade e exposição à luz mudam repetidamente, os sinais ambientais podem ficar menos sincronizados com os ritmos internos.

Pesquisas anteriores relacionam desalinhamento circadiano e sono irregular a alterações na pressão arterial, controle glicêmico, atividade do sistema nervoso autônomo, inflamação e metabolismo.

Esses mecanismos oferecem uma explicação biologicamente plausível para o resultado, mas não foram diretamente demonstrados como responsáveis pelos eventos cardiovasculares neste estudo.

Também é possível que horários irregulares funcionem parcialmente como marcador de outros aspectos da vida, como trabalho em turnos, estresse, hábitos sociais, alimentação ou condições de saúde.

O que o estudo permite — e não permite — concluir

Uma força importante do trabalho é ter utilizado medidas objetivas dos horários, em vez de depender apenas da memória dos participantes, e registros nacionais para identificar eventos cardiovasculares ao longo de mais de dez anos.

Os pesquisadores também fizeram análises adicionais excluindo pessoas que tiveram eventos cardiovasculares nos primeiros dois anos e excluindo trabalhadores em turnos. Os resultados permaneceram semelhantes.

Ainda assim, existem limitações importantes.

Primeiro, os horários foram medidos durante apenas uma janela relativamente curta da meia-idade. A rotina de sono pode ter mudado nos dez anos seguintes.

Segundo, o dispositivo estimava o período de sono a partir de atividade corporal. Portanto, 7h56 representa o período estimado de sono e não necessariamente 7h56 de sono fisiológico confirmado por polissonografia.

Terceiro, ocorreram apenas 128 eventos cardiovasculares. No subgrupo principal, o resultado para horários de dormir irregulares teve intervalo de confiança amplo — de aproximadamente 1,00 a 4,01 — e valor de p de 0,049.

Isso significa que o sinal é interessante e estatisticamente compatível com maior risco, mas a magnitude exata do efeito ainda é relativamente incerta.

Por fim, trata-se de um estudo observacional. Ele não demonstra que tornar o horário de dormir mais regular reduzirá pela metade o risco cardiovascular.

Mensagem prática: duração adequada e regularidade provavelmente devem ser pensadas em conjunto. Manter uma rotina de sono relativamente consistente é uma medida de baixo risco e compatível com recomendações gerais de saúde, mas não substitui controle da pressão, colesterol, glicemia, tabagismo, atividade física e outros fatores cardiovasculares estabelecidos.

FAQ rápida

Dormir em horários irregulares dobra o risco de infarto?
Não exatamente. O estudo encontrou aproximadamente o dobro do risco de um conjunto de eventos cardiovasculares maiores entre pessoas com período de sono inferior a cerca de oito horas e horários de dormir muito irregulares.

Quanto era considerado um horário muito irregular?
Os participantes foram divididos em tercis. No grupo mais regular, o horário de dormir apresentava variabilidade mediana de cerca de 33 minutos; no grupo mais irregular, aproximadamente 108 minutos.

A hora de acordar também aumentou o risco?
Não houve associação estatisticamente significativa entre irregularidade do horário de acordar e eventos cardiovasculares.

Dormir oito horas elimina o problema da irregularidade?
Não podemos concluir isso. Nesse estudo, a associação não foi significativa entre participantes com período de sono acima da mediana de 7h56, mas isso não prova que oito horas neutralizem os efeitos de uma rotina irregular.

Devo tentar dormir exatamente no mesmo horário todos os dias?
Não existe neste estudo um horário exato ou uma variação máxima comprovada como ideal. Manter horários relativamente consistentes e garantir duração adequada do sono é uma estratégia coerente com a saúde circadiana geral.

Genética, ambiente e hábitos constroem o risco individual

Sono, metabolismo, comportamento, ambiente e predisposição genética interagem continuamente na construção da saúde. No curso A Genômica que Todo Médico Precisa Saber, profissionais da saúde aprendem os fundamentos necessários para integrar genética, genômica e medicina de precisão ao raciocínio clínico.

Conhecer o curso da Geneaxis

Veja também os demais conteúdos disponíveis em cursos e aulas da Geneaxis.

Veja também este conteúdo nas redes da Geneaxis

• Instagram: ver publicação

• YouTube: assistir ao Short

• LinkedIn: ver publicação científica

• X: ver publicação em X

• TikTok: ver vídeo no TikTok

Referência científica principal:
Nauha L, Niemelä M, Azadifar S, Korpelainen R, Farrahi V. Sleep timing irregularity in midlife: association with incident major adverse cardiac events and cardiovascular disease mortality over a 10-year follow-up .
BMC Cardiovascular Disorders. 2026;26:299.

PubMed:
PMID: 41877022 .

Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica. O estudo é observacional e não demonstra que irregularidade do sono seja causa direta de infarto, AVC ou outros eventos cardiovasculares. Sintomas persistentes de insônia, sonolência excessiva, ronco importante, pausas respiratórias durante o sono ou doença cardiovascular devem ser avaliados por profissional de saúde.

Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.