Resumo: Um ensaio clínico com 493 adultos comparou água com bebidas sem açúcar adoçadas com edulcorantes durante um programa de controle de peso de dois anos. Entre os participantes avaliados ao final, ambos os grupos mantiveram perda de peso semelhante: 4,8 kg com bebidas sem açúcar e 3,7 kg com água.
O resultado não demonstra que refrigerante zero provoque emagrecimento. A perda de peso ocorreu dentro de um programa comportamental estruturado, e menos da metade dos participantes chegou à avaliação final. O estudo indica principalmente que bebidas sem açúcar não prejudicaram o controle de peso quando comparadas à água nesse contexto.
Assista: refrigerante zero emagrece tanto quanto água?
Bebidas zero atrapalham o emagrecimento?
Se o objetivo é perder peso, trocar refrigerante comum por refrigerante zero produz o mesmo resultado que beber apenas água?
Um ensaio clínico que acompanhou adultos por dois anos oferece uma resposta interessante: dentro de um programa estruturado de controle de peso, bebidas sem açúcar adoçadas com edulcorantes tiveram desempenho semelhante ao da água.
Isso não significa, porém, que refrigerante zero faça emagrecer.
O estudo SWITCH incluiu 493 adultos com sobrepeso ou obesidade. Os participantes foram sorteados para consumir diariamente pelo menos 660 mL de água ou de bebidas sem açúcar adoçadas com edulcorantes não nutritivos.
O grupo das bebidas adoçadas podia escolher entre diferentes produtos, incluindo refrigerantes diet ou zero, bebidas de frutas diet e águas saborizadas sem açúcar. Entre os principais edulcorantes estavam aspartame, acessulfame-K e sucralose.
No primeiro ano, todos participaram do mesmo programa de mudança de hábitos.
Durante as primeiras 12 semanas, quando o foco era perda de peso, os encontros com nutricionistas eram semanais. Nas 40 semanas seguintes, destinadas à manutenção, passaram a ser mensais.
O segundo ano ocorreu sem essas sessões regulares de acompanhamento.
Ao final de 104 semanas, 220 participantes tinham completado a avaliação.
No grupo das bebidas sem açúcar, a perda média desde o início foi de 4,8 kg. No grupo da água, foi de 3,7 kg.
A diferença de 1,1 kg entre os grupos não foi estatisticamente significativa.
Os dois grupos também apresentaram redução da cintura e do quadril, sem diferença significativa entre as bebidas.
A principal interpretação, portanto, não é que bebidas zero promovam emagrecimento. Quem promoveu a perda de peso foi principalmente o conjunto de mudanças comportamentais realizado durante o estudo.
O resultado mostra que, nesse contexto, consumir bebidas sem açúcar foi compatível com perder e manter peso por dois anos e não apresentou desvantagem em relação à água para esse desfecho.
Mas o estudo não respondeu todas as perguntas sobre edulcorantes. Ele não foi desenhado para avaliar efeitos de longo prazo sobre microbiota, saúde bucal ou outros possíveis desfechos.
E existe outra limitação importante: menos da metade dos participantes originalmente randomizados completou os dois anos.
Por isso, água continua sendo uma excelente bebida habitual. Para quem consome regularmente refrigerantes açucarados, porém, versões sem açúcar podem funcionar como uma estratégia de substituição dentro de uma mudança alimentar mais ampla.
Como foi realizado o estudo SWITCH?
O SWITCH foi um ensaio clínico randomizado, aberto e realizado no Reino Unido.
Foram incluídos adultos com índice de massa corporal entre 27 e 35 kg/m² que já tinham o hábito de consumir bebidas frias.
O estudo em números
- 493 participantes randomizados.
- 246 designados para água.
- 247 para bebidas sem açúcar adoçadas com edulcorantes.
- 660 mL por dia ou mais da bebida designada.
- 383 participantes avaliados em 12 semanas.
- 262 avaliados em 52 semanas.
- 220 chegaram à avaliação de 104 semanas.
O estudo comparou grupos paralelos: cada participante permaneceu na estratégia para a qual havia sido inicialmente sorteado.
As pessoas designadas para água deveriam evitar bebidas com edulcorantes não nutritivos, inclusive adoçantes adicionados a bebidas quentes.
Já o grupo das bebidas sem açúcar podia beber água adicionalmente.
As bebidas fornecidas incluíam 20 opções comerciais diferentes, como refrigerantes diet, bebidas gaseificadas sem açúcar, bebidas de frutas diet e águas saborizadas.
Portanto, apesar de “refrigerante zero” ser uma maneira simples de explicar a pergunta ao público, o estudo avaliou uma categoria mais ampla de bebidas sem açúcar.
4,8 kg contra 3,7 kg: por que isso não significa que a bebida zero foi melhor?
Entre os participantes avaliados ao final, o grupo das bebidas sem açúcar perdeu em média 4,8 kg desde o início do estudo, enquanto o grupo da água perdeu 3,7 kg.
A diferença média, portanto, foi de aproximadamente 1,1 kg.
Entretanto, essa diferença não foi estatisticamente significativa.
Além da análise apenas dos participantes que chegaram ao final, os pesquisadores realizaram análises estatísticas para considerar os dados ausentes dos participantes que abandonaram o estudo.
Essas análises também não identificaram uma diferença significativa na perda de peso entre os grupos.
O ponto mais importante
O ensaio não comparou “beber refrigerante zero e não fazer mais nada” com “beber água”. Ambos os grupos participaram de um programa comportamental estruturado para perder e manter peso. A bebida foi apenas uma das diferenças experimentais entre eles.
A maior velocidade de perda de peso ocorreu durante as primeiras 12 semanas, justamente quando o programa comportamental era mais intensivo.
Posteriormente, ambos os grupos recuperaram parte do peso, mas ainda permaneciam abaixo do peso inicial após dois anos.
O que aconteceu com cintura e marcadores metabólicos?
Os dois grupos apresentaram redução significativa das circunferências de cintura e quadril em relação ao início do estudo.
Não houve diferença significativa entre água e bebidas sem açúcar nessas medidas aos dois anos.
Em um pequeno subgrupo que realizou exames de composição corporal, também houve redução de gordura corporal, mas sem diferença significativa entre as estratégias.
Os pesquisadores avaliaram ainda glicemia, hemoglobina glicada, colesterol, triglicerídeos, pressão arterial e marcadores hepáticos.
Alguns parâmetros melhoraram em relação ao início nos dois grupos.
Aos dois anos foram observadas diferenças estatísticas entre as estratégias para colesterol total, hemoglobina glicada e pressão arterial diastólica.
Entretanto, os próprios autores consideraram que a magnitude dessas diferenças não atingia relevância clínica. Algumas dessas análises também envolveram amostras menores devido às dificuldades de coleta durante a pandemia.
Portanto, o estudo não demonstrou uma vantagem metabólica consistente das bebidas zero sobre a água — nem o contrário.
O estudo prova que refrigerante zero ajuda a emagrecer?
Não.
O resultado permite uma conclusão mais específica: quando adultos com sobrepeso ou obesidade participaram de um programa de controle de peso, consumir bebidas sem açúcar adoçadas com edulcorantes produziu resultados de peso semelhantes aos obtidos com água.
Isso é diferente de demonstrar que o próprio refrigerante zero causa emagrecimento.
Uma possível utilidade prática aparece quando essas bebidas substituem bebidas açucaradas.
Um refrigerante convencional fornece açúcar e calorias. Uma versão sem açúcar pode diminuir a ingestão energética quando utilizada em seu lugar, desde que essa redução não seja compensada por outras fontes de energia.
Mas trocar água por refrigerante zero não cria automaticamente um déficit calórico.
A perda de peso continua dependendo principalmente do balanço energético e de uma estratégia sustentável envolvendo alimentação, atividade física, comportamento e outros fatores individuais.
Quais são as principais limitações?
A primeira é a perda expressiva de participantes durante o acompanhamento.
Dos 493 adultos inicialmente randomizados, apenas 220 chegaram à avaliação de dois anos — aproximadamente 45% da amostra inicial.
Os pesquisadores realizaram análises adicionais imputando os dados ausentes, e os resultados permaneceram semelhantes. Ainda assim, uma taxa elevada de abandono reduz a segurança com que os resultados podem ser generalizados.
O estudo também era aberto: os participantes sabiam se estavam consumindo água ou bebidas adoçadas.
A etapa entre 52 e 104 semanas foi uma extensão voluntária e sem as sessões regulares de acompanhamento do primeiro ano.
Além disso, parte do estudo coincidiu com a pandemia de COVID-19. Algumas medidas precisaram ser realizadas em casa e determinadas coletas laboratoriais não puderam ser feitas para todos os participantes.
Outra limitação importante é o escopo.
O estudo foi desenhado principalmente para avaliar peso e manutenção do peso. Ele não resolve todas as questões sobre consumo prolongado de edulcorantes, incluindo possíveis diferenças entre substâncias ou efeitos sobre saúde bucal, microbiota intestinal e outros desfechos clínicos.
Por que o financiamento do estudo merece ser mencionado?
O ensaio SWITCH foi financiado pela American Beverage Association, entidade que representa a indústria de bebidas dos Estados Unidos.
Segundo o artigo, a associação não participou do desenho do estudo, da execução, da análise dos dados ou da interpretação dos resultados.
Um representante da entidade, entretanto, teve oportunidade de revisar o manuscrito antes da publicação, embora os autores afirmem que as decisões finais sobre o conteúdo permaneceram sob sua responsabilidade.
O suporte de redação médica utilizado no desenvolvimento do manuscrito também foi financiado pela American Beverage Association.
Diversos autores declararam financiamento para o próprio estudo e alguns relataram outras relações profissionais ou financeiras com organizações e empresas dos setores de alimentos, bebidas ou saúde.
Conflito de interesse não significa fraude
Financiamento industrial não invalida automaticamente uma pesquisa. Entretanto, é informação relevante para que resultados potencialmente favoráveis aos produtos de um setor sejam interpretados juntamente com o desenho do estudo, a análise estatística, as limitações e a possibilidade de reprodução independente.
Então é melhor beber água ou refrigerante zero?
O estudo não foi desenhado para determinar qual bebida é “mais saudável” em todos os aspectos.
Ele respondeu a uma pergunta muito mais restrita: no contexto de um programa de controle de peso, consumir bebidas sem açúcar prejudica a perda e a manutenção de peso quando comparado a beber água?
Neste ensaio, a resposta foi não.
Água continua sendo uma opção simples para hidratação, sem açúcar, calorias, edulcorantes ou acidez de refrigerantes.
Mas para uma pessoa que consome regularmente bebidas açucaradas, substituir parte desse consumo por versões sem açúcar pode ser uma estratégia de transição para reduzir calorias provenientes das bebidas.
Isso não transforma refrigerante zero em tratamento para obesidade nem significa que ele precise fazer parte de uma dieta saudável.
Principal mensagem
Bebidas zero não emagreceram os participantes por si mesmas. Dentro de um programa comportamental, porém, foram compatíveis com perda e manutenção de peso semelhantes às observadas com água durante dois anos. Para quem substitui uma bebida açucarada, elas podem ser uma ferramenta — não uma solução isolada.
Perguntas frequentes
Refrigerante zero emagrece?
Não há evidência de que refrigerante zero, isoladamente, provoque perda de peso. No estudo SWITCH, bebidas sem açúcar foram utilizadas dentro de um programa comportamental de controle de peso e produziram resultados semelhantes aos da água.
Refrigerante zero engorda?
Este ensaio não encontrou prejuízo à perda ou à manutenção de peso em comparação com a água ao longo de dois anos. Isso não significa, porém, que todos os possíveis efeitos de bebidas com edulcorantes estejam resolvidos.
Quanto peso os participantes perderam?
Entre os participantes avaliados após 104 semanas, a perda média desde o início foi de 4,8 kg no grupo das bebidas sem açúcar e 3,7 kg no grupo da água. A diferença entre os grupos não foi estatisticamente significativa.
O estudo comparou apenas refrigerante zero com água?
Não. O grupo experimental podia consumir diferentes bebidas sem açúcar, incluindo refrigerantes diet ou zero, bebidas de frutas diet e águas saborizadas adoçadas com edulcorantes não nutritivos.
Trocar refrigerante comum por zero pode ajudar no emagrecimento?
Pode reduzir a ingestão de açúcar e calorias provenientes da bebida quando a versão sem açúcar substitui efetivamente a versão açucarada. O efeito sobre o peso, porém, depende do conjunto da alimentação e do comportamento, e não apenas da bebida escolhida.
Água continua sendo uma boa escolha?
Sim. Este estudo não demonstrou que bebidas zero sejam superiores à água. Ele mostrou apenas que, dentro do programa estudado, não houve diferença relevante de perda de peso entre as estratégias após dois anos.
Nutrição: menos manchetes, mais contexto
Estudos sobre alimentação frequentemente parecem oferecer respostas simples para perguntas complexas. Na prática, é preciso distinguir o efeito de um alimento isolado do conjunto de mudanças realizadas durante uma intervenção.
No Blog Geneaxis, analisamos pesquisas científicas procurando separar associação, causalidade e significado clínico dos resultados.
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Referência científica
Harrold JA, Hill S, Radu C, et al. Effect of non-nutritive sweetened beverages v. water on body weight: long-term results of a randomised controlled trial. British Journal of Nutrition. 2026;136(4):482–493.
Artigo científico original — DOI: 10.1017/S0007114526108150
Financiamento e conflitos de interesse:
O ensaio foi financiado pela American Beverage Association. Segundo o artigo, a entidade não participou do desenho, da condução, da análise dos dados ou da interpretação do estudo, embora um representante tenha tido oportunidade de revisar o manuscrito. As decisões finais sobre o conteúdo permaneceram com os autores.
O suporte de redação médica também foi financiado pela associação. Diversos autores declararam financiamento relacionado ao estudo e alguns relataram outros vínculos acadêmicos ou financeiros com empresas e organizações dos setores de alimentos, bebidas e saúde.
Aviso: Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou nutricional individualizada. O estudo avaliou bebidas sem açúcar dentro de um programa estruturado de controle de peso e não demonstra que refrigerantes zero sejam tratamentos para obesidade nem responde a todos os possíveis efeitos do consumo prolongado de edulcorantes.
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


