Sequenciamento completo do genoma em bebês críticos internados em UTIs brasileiras

Sequenciamento do genoma em bebês críticos: estudo brasileiro mostra alto impacto clínico

Resumo do tema: nosso estudo brasileiro avaliou o sequenciamento completo do genoma em 100 bebês criticamente doentes internados em UTIs neonatais ou pediátricas. Uma causa molecular foi confirmada em 32% dos casos e outros 7% foram considerados provavelmente diagnósticos. Com mediana de 13 dias para liberação dos resultados, o exame mostrou utilidade clínica que ultrapassou o diagnóstico, influenciando manejo, aconselhamento genético e decisões para os pacientes e suas famílias.

Transcrição revisada

Quando um bebê gravemente doente está internado em uma unidade de terapia intensiva, chegar rapidamente ao diagnóstico pode mudar completamente a forma como a equipe conduz o caso.

Nosso novo estudo brasileiro avaliou justamente o uso do sequenciamento completo do genoma nesse contexto. Foram investigados 100 lactentes com menos de um ano, internados em UTIs neonatais ou pediátricas de sete hospitais públicos brasileiros.

Uma causa molecular considerada definitivamente diagnóstica foi identificada em 32% dos casos. Outros 7% apresentaram resultados classificados como provavelmente diagnósticos, levando o rendimento diagnóstico potencial a 39%.

Outro dado particularmente importante foi o tempo. A mediana entre o recebimento da amostra e a liberação do laudo foi de apenas 13 dias, variando de 7 a 25 dias.

Em pacientes críticos, essa velocidade importa. Um diagnóstico pode direcionar tratamento, antecipar complicações, modificar decisões de suporte, orientar cuidados paliativos e fornecer informações fundamentais para a família.

E foi exatamente isso que observamos. Entre os 90 casos em que os médicos responsáveis responderam à avaliação de utilidade, 81,1% consideraram o sequenciamento clinicamente útil.

Curiosamente, a utilidade não ficou limitada aos exames positivos. Resultados inconclusivos ou mesmo negativos também puderam ajudar a excluir hipóteses, orientar novas investigações, permitir reanálises futuras e trazer informações relevantes para pacientes e familiares.

O trabalho representa a maior coorte sul-americana de bebês criticamente doentes investigados por sequenciamento do genoma e mostra que essa tecnologia pode ser implementada em uma rede pública por meio de um modelo de parceria entre o sistema público de saúde e uma instituição privada.

Mais do que identificar doenças raras, o estudo mostra como a medicina genômica pode transformar decisões reais à beira do leito e, ao mesmo tempo, ampliar a representação de populações brasileiras em uma área da ciência ainda marcada por grandes desigualdades de acesso e de dados.

Cem bebês criticamente doentes em sete hospitais públicos

O estudo foi conduzido no contexto do Projeto Genomas Raros e incluiu pacientes internados em unidades de terapia intensiva neonatal ou pediátrica entre abril de 2023 e julho de 2024.

Participaram sete hospitais públicos distribuídos por quatro estados brasileiros, tornando este um estudo multicêntrico em condições reais do sistema de saúde.

Os 100 bebês tinham entre 4 e 352 dias no momento da inclusão, com idade mediana de apenas 62 dias.

Os pacientes foram divididos em dois grandes grupos clínicos:

• 47% eram bebês criticamente doentes sem uma anomalia morfológica predominante;
• 53% apresentavam uma ou múltiplas anomalias morfológicas.

Entre os pacientes agudamente enfermos, manifestações neurológicas eram as mais frequentes, seguidas por alterações imunológicas e metabólicas.

Já entre aqueles com alterações morfológicas, 87% apresentavam múltiplas anomalias.

Um detalhe particularmente relevante é que 88 dos 100 bebês fizeram o sequenciamento do genoma como primeiro exame genético.

Isso muda a lógica tradicional da investigação: em vez de realizar sequencialmente diversos exames menores e aguardar semanas ou meses entre eles, o genoma pode funcionar como uma investigação abrangente logo no início do quadro clínico.

Diagnóstico molecular em 32% — e potencialmente em 39%

Os resultados principais foram classificados em quatro categorias: diagnóstico, provavelmente diagnóstico, inconclusivo e negativo.

O sequenciamento identificou uma causa molecular considerada diagnóstica em 32 dos 100 bebês.

Outros sete apresentavam achados classificados como provavelmente diagnósticos, principalmente situações em que existia forte correspondência entre genótipo e fenótipo, mas ainda faltava alguma confirmação necessária para fechar definitivamente a interpretação molecular.

Assim, o rendimento potencial chegou a 39%.

Entre esses 39 resultados estavam 33 doenças monogênicas, além de alterações cromossômicas e outras condições.

As doenças identificadas incluíram síndromes dismórficas e de malformações, erros inatos do metabolismo, doenças neurológicas, displasias esqueléticas, doenças renais, dermatológicas e erros inatos da imunidade.

Em 20 dos 32 diagnósticos confirmados — 62,5% — o sequenciamento foi considerado crucial para estabelecer a causa: ou não existia uma hipótese clínica molecular específica antes do exame, ou o resultado modificou a hipótese inicialmente considerada pela equipe.

Isso ilustra uma das maiores vantagens do genoma em pacientes críticos: o quadro clínico pode ser incompleto, atípico ou ainda estar evoluindo, dificultando selecionar antecipadamente um único gene ou síndrome para investigar.

Treze dias podem fazer diferença em uma UTI

Em genética ambulatorial, algumas semanas podem representar um intervalo relativamente curto. Em uma UTI neonatal, a escala de tempo é diferente.

Pacientes podem evoluir rapidamente, exigindo decisões sobre tratamentos invasivos, cirurgias, suporte intensivo, terapias específicas e prognóstico em questão de dias.

No estudo brasileiro, a mediana do turnaround time — intervalo entre o recebimento da amostra e a liberação do laudo — foi de 13 dias, com variação entre 7 e 25 dias.

Esse resultado é comparável ao observado em programas internacionais de sequenciamento genômico de pacientes críticos.

O modelo brasileiro apresenta ainda uma característica interessante: o sequenciamento não era realizado continuamente apenas para os pacientes da UTI. As amostras eram processadas em conjunto com a rotina laboratorial, uma ou duas vezes por semana.

Essa estratégia pode aumentar discretamente o tempo de resposta, mas reduz custos e torna o modelo mais compatível com sistemas de saúde que precisam otimizar recursos.

Contexto brasileiro: exames como cariótipo, microarray e exoma podem levar semanas ou meses em muitos fluxos assistenciais. Obter um resultado genômico abrangente em uma mediana de 13 dias representa um avanço importante para pacientes criticamente enfermos.

O impacto clínico foi muito além de simplesmente “dar um diagnóstico”

Talvez o aspecto mais interessante do artigo seja a forma ampla como a equipe avaliou a utilidade clínica.

Em vez de perguntar apenas “o exame foi positivo?”, os pesquisadores analisaram quatro dimensões:

• percepção do médico sobre a utilidade do resultado;
• impacto no manejo ou escolha terapêutica;
• relevância para o bebê ou seus familiares/cuidadores;
• impacto sobre o aconselhamento genético.

Os médicos responsáveis responderam ao questionário em 90 dos 100 casos.

Em 73 desses 90 casos, ou 81,1%, o resultado do sequenciamento foi considerado clinicamente útil.

Todos os resultados classificados como diagnósticos ou provavelmente diagnósticos foram considerados úteis pelos médicos.

Mais surpreendente foi observar utilidade percebida em 54,8% dos resultados inconclusivos e em 86,9% dos resultados negativos.

Um resultado negativo, por exemplo, pode enfraquecer determinadas hipóteses diagnósticas, reduzir a necessidade de investigações repetitivas e deixar dados genômicos disponíveis para futuras reanálises à medida que novos genes e mecanismos de doença sejam descobertos.

Quando a pergunta foi especificamente se o sequenciamento havia mudado o manejo clínico, a resposta foi positiva em 29 dos 90 casos avaliados — 32,2%.

Entre as mudanças relatadas estavam:

• implementação ou redirecionamento de terapias de suporte;
• vigilância antecipada para complicações específicas;
• início ou redirecionamento de cuidados paliativos;
• ajustes em terapias direcionadas;
• mudanças farmacológicas ou cirúrgicas em casos selecionados.

Esse resultado reforça uma distinção essencial: rendimento diagnóstico e utilidade clínica não são exatamente a mesma coisa.

O resultado genético também pertence à família

Em doenças genéticas, identificar a causa de um quadro raramente traz informação apenas para a pessoa examinada.

O diagnóstico pode revelar um padrão de herança, estimar risco de recorrência em futuras gestações e indicar quando outros familiares também devem ser avaliados.

No estudo, os resultados diagnósticos e provavelmente diagnósticos tiveram impacto importante sobre o aconselhamento genético e foram considerados relevantes não apenas para os bebês, mas também para seus familiares.

O sequenciamento identificou ainda achados secundários clinicamente acionáveis em quatro participantes, envolvendo variantes em BRCA1, KCNQ1, PALB2 e TTR.

Foram encontrados também achados incidentais relacionados a GALT, MIB1 e HBB, incluindo uma situação em que o genoma identificou galactosemia em um bebê investigado por outro motivo.

Esses exemplos mostram por que o aconselhamento genético antes e depois do exame continua sendo parte fundamental da medicina genômica.

Um modelo brasileiro para implementação da medicina genômica

O trabalho foi realizado dentro do Projeto Genomas Raros, por meio de uma parceria entre o Hospital Israelita Albert Einstein, o Ministério da Saúde, instituições públicas participantes e parceiros envolvidos no processamento e análise genômica.

Esse modelo é particularmente relevante porque boa parte dos grandes estudos de sequenciamento genômico rápido em UTIs foi realizada na América do Norte, Europa, Ásia ou Oceania.

O estudo brasileiro representa atualmente a maior série sul-americana de bebês criticamente doentes investigados com sequenciamento completo do genoma.

Todos os pacientes vieram de hospitais públicos, mostrando a viabilidade de produzir resultados clinicamente úteis mesmo em um cenário de restrições de recursos.

Isso não significa que o genoma já esteja disponível rotineiramente em todas as UTIs brasileiras. Pelo contrário: acesso a testes moleculares ainda é desigual, e análises de custo-efetividade, infraestrutura, formação profissional e organização do sistema serão necessárias para definir modelos sustentáveis de incorporação.

Mas o estudo fornece uma demonstração concreta de que essa implementação é possível e oferece dados capazes de auxiliar futuras decisões de política pública.

Há ainda outro benefício científico: a pesquisa adiciona informações genômicas provenientes de uma população historicamente sub-representada nas grandes iniciativas internacionais de genômica.

O impacto vai além dos 100 pacientes: estudos como este ajudam a construir evidência brasileira para decidir quando, onde e como o sequenciamento do genoma deve entrar no sistema de saúde.

Quais são as limitações do estudo?

Apesar dos resultados importantes, alguns pontos precisam ser considerados.

O estudo incluiu apenas 100 pacientes, e os critérios utilizados para selecionar bebês com suspeita elevada de doença genética podem aumentar a taxa diagnóstica em comparação com uma população não selecionada de UTI.

O sequenciamento também não foi realizado sistematicamente em trio — bebê, mãe e pai — o que limitou a interpretação de algumas variantes, especialmente para comprovar eventos de novo e determinar se duas variantes recessivas estavam em alelos diferentes.

Além disso, algumas decisões clínicas em casos classificados como provavelmente diagnósticos foram baseadas na forte correlação entre genótipo e fenótipo antes de confirmação molecular completa, o que pode superestimar parte dos achados.

Ainda assim, o rendimento de 32% para diagnósticos confirmados está dentro da faixa observada em estudos internacionais de pacientes pediátricos criticamente enfermos.

O próximo passo será integrar esses resultados a análises de custo-efetividade, percepção das famílias, formação dos profissionais de saúde e avaliação de modelos sustentáveis de incorporação.

FAQ rápida

Qual foi a taxa de diagnóstico com o sequenciamento do genoma?
Uma causa molecular confirmada foi identificada em 32% dos 100 bebês. Outros 7% tiveram resultados classificados como provavelmente diagnósticos, chegando a um rendimento potencial de 39%.

Quanto tempo demorou para sair o resultado?
A mediana foi de 13 dias entre o recebimento da amostra e a emissão do laudo, com variação entre 7 e 25 dias.

O resultado realmente mudou o tratamento?
Houve mudança direta no manejo em 32,2% dos 90 casos com questionário de utilidade clínica disponível. As modificações incluíram terapias de suporte, vigilância de complicações, cuidados paliativos e tratamentos direcionados.

Um resultado negativo também pode ser útil?
Sim. Médicos consideraram 86,9% dos resultados negativos clinicamente úteis, por exemplo ao reduzir determinadas hipóteses, orientar a investigação e permitir futuras reanálises dos dados genômicos.

O sequenciamento do genoma já está disponível rotineiramente no SUS?
Não de forma ampla para esse cenário. O estudo foi realizado no contexto do Projeto Genomas Raros e funciona como um modelo de implementação capaz de gerar evidências para futuras decisões de incorporação e políticas públicas.

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Referência científica principal:
Moreno CA, de França M, Prota JRM, et al. Assessment of diagnostic yield and clinical utility of genome sequencing in critically ill infants .
Pediatric Research. 2026.

O Dr. Caio Robledo Quaio é coautor do estudo e participou da análise dos dados no âmbito do Projeto Genomas Raros.

Contexto do projeto:
estudo prospectivo multicêntrico realizado no Projeto Genomas Raros, em parceria entre o Hospital Israelita Albert Einstein, o Ministério da Saúde e hospitais públicos brasileiros, no âmbito do PROADI-SUS.

Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação genética individualizada. O sequenciamento completo do genoma não é indicado automaticamente para todo paciente internado em UTI. A escolha do exame depende da apresentação clínica, das hipóteses diagnósticas, de exames anteriores, da disponibilidade tecnológica e da avaliação da equipe assistencial e de genética.

Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130
Coautor do estudo e integrante do Projeto Genomas Raros

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.