Ozempic e medicamentos GLP-1: estudo investiga associação entre impulsividade e comportamento violento.

Ozempic e GLP-1 podem influenciar impulsividade e violência?

Resumo: Medicamentos agonistas do receptor GLP-1, como Ozempic e Wegovy, podem estar associados a mudanças na relação entre impulsividade e comportamento violento. Um estudo norte-americano publicado na revista científica Criminology identificou que a associação entre impulsividade e violência foi aproximadamente 62% mais fraca entre usuários atuais desses medicamentos, em comparação com ex-usuários.

Entretanto, trata-se de um estudo observacional e transversal. Os resultados não demonstram que esses medicamentos previnem violência, reduzem diretamente a impulsividade ou constituem tratamentos para alterações comportamentais.

Assista: Ozempic, impulsividade e comportamento

Ozempic pode influenciar o comportamento? Entenda a pesquisa

Medicamentos como Ozempic e Wegovy ficaram conhecidos pelo tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade. Entretanto, pesquisas recentes investigam se os agonistas do receptor GLP-1 também podem influenciar mecanismos cerebrais envolvidos na recompensa, no consumo de substâncias e no controle dos impulsos.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Rutgers University, nos Estados Unidos, investigou uma possibilidade particularmente interessante: esses medicamentos poderiam modificar a relação entre impulsividade e comportamento violento?

Os pesquisadores utilizaram dados de um levantamento com 7.521 adultos norte-americanos. A análise principal concentrou-se em 821 participantes que já haviam utilizado medicamentos dessa classe.

Entre os usuários atuais, a associação estatística entre impulsividade e comportamento violento foi aproximadamente 62% mais fraca do que entre aqueles que haviam interrompido o tratamento.

Os pesquisadores também observaram uma associação aparentemente mais fraca entre consumo de álcool e violência, embora esse resultado tenha apresentado menor consistência nas análises adicionais.

Uma das hipóteses discutidas pelos autores é que esses medicamentos poderiam influenciar processos relacionados à recompensa e à regulação comportamental, reduzindo a probabilidade de determinados impulsos se traduzirem em comportamentos violentos.

Entretanto, essa hipótese ainda precisa ser demonstrada experimentalmente.

O estudo é observacional, utiliza informações autorrelatadas e não permite estabelecer causalidade. Portanto, seus resultados não justificam a utilização desses medicamentos para prevenir ou tratar comportamentos violentos.

A pesquisa amplia uma linha de investigação sobre possíveis efeitos dos agonistas GLP-1 no sistema nervoso central, particularmente nos mecanismos relacionados à impulsividade, à recompensa e ao comportamento.

O que são os agonistas GLP-1 e por que podem influenciar o cérebro?

Os agonistas do receptor do peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1 (GLP-1) são medicamentos utilizados principalmente no tratamento do diabetes tipo 2 e da obesidade, conforme o medicamento e sua indicação aprovada.

Entre os exemplos estão a semaglutida, presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, e a liraglutida.

Esses medicamentos atuam sobre receptores envolvidos em diferentes processos metabólicos, incluindo a regulação da glicemia, o esvaziamento gástrico e a saciedade.

Entretanto, a sinalização do GLP-1 também participa de circuitos do sistema nervoso central envolvidos na regulação do comportamento alimentar e nos mecanismos de recompensa.

Pesquisas experimentais e clínicas investigam possíveis relações entre essa sinalização e processos como:

  • Regulação dos circuitos cerebrais de recompensa.
  • Motivação e busca por estímulos recompensadores.
  • Consumo de álcool e outras substâncias.
  • Controle dos impulsos e regulação comportamental.
  • Respostas neurobiológicas ao estresse.

Essas linhas de investigação ajudam a explicar o interesse científico pelos possíveis efeitos dos agonistas GLP-1 além do metabolismo.

Contudo, a existência de mecanismos neurobiológicos plausíveis não demonstra que esses medicamentos sejam eficazes para tratar impulsividade, agressividade ou outros transtornos comportamentais.

Como foi realizado o estudo?

A pesquisa foi conduzida por Daniel C. Semenza e Christopher Thomas, da Rutgers University, e publicada em junho de 2026 na revista científica Criminology.

Os autores utilizaram informações de um levantamento realizado em 2025 com 7.521 adultos norte-americanos.

Desse grupo, 821 participantes que relataram utilização prévia ou atual de medicamentos agonistas GLP-1 foram incluídos na análise principal.

O estudo em números

  • 7.521: participantes do levantamento original.
  • 821: participantes da análise principal.
  • 597: usuários atuais de agonistas GLP-1.
  • 224: ex-usuários desses medicamentos.
  • 2025: ano do levantamento.
  • 2026: ano da publicação científica.

Os pesquisadores investigaram a relação entre impulsividade, consumo de álcool e comportamentos violentos autorrelatados nos 12 meses anteriores.

Para avaliar a impulsividade, utilizaram uma escala composta por sete itens. O consumo de álcool foi avaliado por meio de perguntas sobre frequência de consumo e episódios de ingestão elevada.

Os modelos estatísticos incluíram diferentes características demográficas, socioeconômicas e clínicas. Os pesquisadores também utilizaram ponderação estatística para melhorar a comparabilidade entre usuários atuais e ex-usuários.

O objetivo central não era simplesmente verificar se os usuários atuais apresentavam menos violência. Os pesquisadores investigaram se o uso atual desses medicamentos modificava a intensidade da associação entre fatores comportamentais de risco e violência.

Quais foram os principais resultados?

O principal resultado envolveu a relação entre impulsividade e comportamentos violentos.

Entre os ex-usuários de agonistas GLP-1, níveis mais elevados de impulsividade apresentaram uma associação estatisticamente significativa com maior frequência de comportamentos violentos.

Entre os usuários atuais, essa associação foi consideravelmente mais fraca.

O modelo estatístico principal identificou uma razão de taxas de incidência para a interação entre uso atual de GLP-1 e impulsividade de 0,378, com intervalo de confiança de 95% entre 0,206 e 0,692 (p = 0,002).

O que significa o resultado de 62%?

A associação entre impulsividade e comportamento violento foi aproximadamente 62% mais fraca entre usuários atuais de agonistas GLP-1, em comparação com ex-usuários.

Isso não significa que esses medicamentos reduziram a violência em 62%. O resultado descreve uma interação estatística entre o uso dos medicamentos e a associação da impulsividade com os comportamentos investigados.

Nas análises adicionais, a interação envolvendo impulsividade permaneceu estatisticamente significativa em diferentes modelos, reforçando a consistência interna desse achado.

Os pesquisadores também identificaram uma interação entre consumo de álcool e uso atual de agonistas GLP-1, com estimativa de associação aproximadamente 52% mais fraca.

Entretanto, esse segundo resultado não apresentou a mesma consistência nas análises de sensibilidade.

Outro detalhe importante: quando o uso atual de GLP-1 foi avaliado isoladamente, sem considerar as interações comportamentais, não houve associação independente estatisticamente significativa com a frequência de comportamentos violentos.

Portanto, a principal observação do estudo está relacionada à possível modificação da associação entre impulsividade e violência, e não à demonstração de um efeito geral de prevenção da violência.

Os medicamentos poderiam modificar a resposta aos impulsos?

Uma das interpretações propostas pelos pesquisadores é que os agonistas GLP-1 poderiam influenciar processos neurobiológicos relacionados à recompensa, à motivação e à regulação comportamental.

Segundo essa hipótese, os medicamentos não precisariam necessariamente reduzir os níveis basais de impulsividade para modificar a associação entre impulsividade e comportamento violento.

Em vez disso, poderiam influenciar processos intermediários envolvidos na transformação de determinados impulsos em ações.

Os autores apresentam uma analogia conceitual com intervenções cognitivo-comportamentais, que podem modificar a resposta comportamental diante de determinados fatores de risco.

Entretanto, o estudo não avaliou diretamente os mecanismos cerebrais envolvidos e não comparou medicamentos com psicoterapia.

Também não demonstrou que o uso desses medicamentos modifica individualmente a capacidade de controlar impulsos.

Para investigar essa possibilidade, serão necessários estudos prospectivos e experimentais, com avaliações específicas dos mecanismos neurobiológicos e comportamentais envolvidos.

Quais são as limitações da pesquisa?

Embora os resultados sejam interessantes, existem limitações importantes que precisam ser consideradas antes de qualquer interpretação clínica.

1. Desenho observacional e transversal. O estudo identificou associações estatísticas, mas não permite estabelecer relações de causa e efeito.

2. Informações autorrelatadas. O histórico de utilização dos medicamentos e os comportamentos investigados foram informados pelos próprios participantes, o que pode introduzir vieses de memória e de relato.

3. Temporalidade. O estudo não permite determinar com precisão se os comportamentos violentos ocorreram antes, durante ou depois dos períodos de utilização dos medicamentos.

4. Possibilidade de confundimento residual. Mesmo após os ajustes estatísticos, usuários atuais e ex-usuários podem apresentar diferenças não completamente consideradas pelos modelos.

5. Generalização. Os resultados foram obtidos em adultos norte-americanos com histórico de utilização desses medicamentos. Não devem ser automaticamente extrapolados para outras populações ou situações clínicas.

6. Análise por classe farmacológica. A pesquisa agrupou diferentes agonistas GLP-1. Portanto, não demonstrou que semaglutida, liraglutida ou outros medicamentos apresentem individualmente o mesmo padrão de associação.

Principal mensagem científica

Os resultados sustentam uma hipótese de pesquisa sobre a relação entre sinalização GLP-1, impulsividade e comportamento violento. Entretanto, ainda não existe demonstração de que esses medicamentos previnam violência ou devam ser utilizados para essa finalidade.

O que essa descoberta pode significar para a medicina?

O interesse científico pelos agonistas GLP-1 ultrapassa suas aplicações metabólicas tradicionais.

Pesquisadores investigam como esses medicamentos podem influenciar diferentes processos fisiológicos e neurobiológicos, incluindo mecanismos envolvidos na recompensa, no consumo de substâncias e na regulação comportamental.

O estudo publicado na revista Criminology acrescenta uma nova hipótese a esse campo de investigação: a possibilidade de que a sinalização GLP-1 esteja relacionada à intensidade com que determinados fatores comportamentais se associam à violência.

Entretanto, essa possibilidade permanece experimental do ponto de vista de suas aplicações clínicas.

Pesquisas futuras precisarão estabelecer se a associação observada pode ser reproduzida, identificar eventuais mecanismos causais e determinar se existem implicações clínicas relevantes.

Até que essas questões sejam esclarecidas, a utilização dos agonistas GLP-1 deve continuar fundamentada nas indicações clínicas estabelecidas para cada medicamento.

Perguntas frequentes

Ozempic pode reduzir a agressividade?

Ainda não sabemos. Um estudo observacional identificou uma associação mais fraca entre impulsividade e comportamento violento entre usuários atuais de agonistas GLP-1. Entretanto, não demonstrou que Ozempic reduza diretamente a agressividade ou previna violência.

Ozempic e Wegovy atuam no cérebro?

A sinalização do GLP-1 participa de processos cerebrais relacionados à saciedade e à recompensa. Entretanto, os possíveis efeitos desses medicamentos sobre impulsividade e comportamento violento ainda precisam ser esclarecidos.

O estudo demonstrou uma redução de 62% na violência?

Não. O resultado de aproximadamente 62% refere-se à menor intensidade da associação estatística entre impulsividade e comportamentos violentos entre usuários atuais, comparativamente aos ex-usuários.

Medicamentos GLP-1 podem reduzir o consumo de álcool?

Existem pesquisas investigando possíveis efeitos desses medicamentos sobre o consumo de álcool e os mecanismos cerebrais de recompensa. No estudo discutido aqui, a interação envolvendo consumo de álcool e violência foi menos consistente do que a interação envolvendo impulsividade.

Agonistas GLP-1 podem ser utilizados para tratar impulsividade?

Os resultados desta pesquisa não justificam essa utilização. São necessários estudos clínicos específicos para estabelecer eficácia, segurança e possíveis indicações terapêuticas relacionadas ao controle dos impulsos.

Qual é a principal limitação do estudo?

O desenho observacional e transversal impede estabelecer causalidade. Além disso, os dados foram autorrelatados e existem incertezas relacionadas à temporalidade da utilização dos medicamentos e dos comportamentos investigados.

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Referência científica

Semenza DC, Thomas C. Glucagon-like peptide-1 receptor agonist use and violent crime among US adults. Criminology. Publicado em 17 de junho de 2026.

DOI: 10.1111/1745-9125.70058

Aviso: Este conteúdo possui finalidade exclusivamente educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Os resultados apresentados são observacionais e não justificam o uso de agonistas GLP-1 para prevenção de violência ou tratamento de alterações comportamentais. Não inicie, modifique ou interrompa tratamentos medicamentosos sem orientação profissional.

Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

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Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.