daraxonrasib no câncer de pâncreas com alvo na via RAS

Novo medicamento mira alvo genético e quase dobra sobrevida no câncer de pâncreas

O câncer de pâncreas é um dos tumores mais agressivos justamente porque costuma ser descoberto tarde e tem poucas opções eficazes de tratamento. Por décadas, uma das principais vias biológicas envolvidas nessa doença, a via RAS, presente em mais de 90% dos casos, foi considerada praticamente “intratável”.

Agora, um novo medicamento oral chamado daraxonrasib pode mudar esse cenário. Em um estudo de fase 3 com 500 pacientes com câncer de pâncreas metastático já tratado anteriormente, o remédio quase dobrou a sobrevida média: de 6,7 para 13,2 meses. O risco de morte foi reduzido em cerca de 60% em comparação com a quimioterapia padrão.

O que é o daraxonrasib e por que ele chamou tanta atenção

O daraxonrasib é um inibidor oral de RAS(ON), desenhado para interferir na forma ativa da proteína RAS, que mantém a célula tumoral recebendo sinais contínuos de crescimento. Em vez de tentar atacar o alvo da forma tradicional, a droga usa uma estratégia indireta para desorganizar esse estado ativo e impedir que o câncer continue “ligado”.

Isso é especialmente relevante no câncer de pâncreas porque alterações em RAS, especialmente nas mutações do grupo G12, são extremamente frequentes. Durante muito tempo, esse foi um dos grandes “alvos impossíveis” da oncologia. Por isso, o estudo representa não apenas um novo tratamento, mas também um marco conceitual na terapia-alvo desse tumor.

O que o estudo mostrou na prática

O ensaio comparou daraxonrasib com quimioterapia em pacientes com doença metastática previamente tratada. O benefício apareceu tanto na sobrevida quanto no controle da progressão tumoral. Em termos práticos, isso significa que os pacientes tratados com a nova droga viveram mais e também demoraram mais a ter piora da doença.

Outro dado importante foi a tolerabilidade. Os efeitos colaterais mais frequentes incluíram:

rash cutâneo;
feridas na boca;
diarreia;
náuseas.

Mesmo assim, menos pacientes precisaram interromper o tratamento por toxicidade relacionada ao medicamento do que no grupo da quimioterapia. Isso reforça a ideia de que o daraxonrasib não apenas é eficaz, mas pode também oferecer um perfil prático mais manejável em parte dos casos.

Por que esse resultado é tão importante no câncer de pâncreas

O câncer de pâncreas metastático sempre foi uma das áreas mais difíceis da oncologia. Mesmo quando o tratamento funciona, os ganhos costumam ser pequenos. Por isso, um remédio que quase dobra a sobrevida média em pacientes já tratados representa um avanço raro e relevante.

Além disso, o estudo reforça que terapias-alvo podem finalmente começar a ocupar espaço real em um tumor que, por muito tempo, foi dominado quase exclusivamente por quimioterapia. Isso marca a entrada do câncer de pâncreas em uma fase mais concreta de medicina de precisão.

O que ainda falta saber

Apesar do entusiasmo, ainda é necessário aguardar avaliação regulatória e a incorporação progressiva do tratamento na prática clínica. Também será importante entender melhor:

• quais pacientes se beneficiam mais;
• como a droga pode funcionar em linhas mais precoces de tratamento;
• se combinações com outras terapias podem ampliar ainda mais o benefício;
• como a resistência ao tratamento surge ao longo do tempo.

Mesmo com essas perguntas em aberto, o estudo já estabelece algo muito importante: um tumor antes visto como quase impossível de tratar com terapia-alvo pode estar entrando em uma nova era.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Decisões sobre tratamento oncológico devem sempre ser tomadas com equipe especializada, considerando perfil molecular, estágio da doença e condição clínica individual.

Referência científica

Artigo original em New England Journal of Medicine.
DOI: 10.1056/NEJMoa2605555

Assista em vídeo: novo medicamento quase dobra a sobrevida no câncer de pâncreas

RAS, oncologia e medicina de precisão

Esse estudo reforça uma mudança profunda na oncologia: tumores antes considerados “sem alvo tratável” podem começar a responder a drogas desenhadas com muito mais sofisticação molecular. O daraxonrasib é um exemplo claro de como a medicina de precisão pode sair do conceito e produzir impacto clínico real em um dos cânceres mais difíceis da prática médica.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.