Resumo do tema: um pequeno estudo com adultos com comprometimento cognitivo leve e distúrbios do sono encontrou melhor desempenho no teste MoCA entre aqueles que relataram consumir pelo menos 5.000 UI de vitamina D por dia. O resultado é interessante, mas o estudo foi transversal, envolveu apenas 54 participantes e não demonstrou que a suplementação tenha melhorado a cognição ou prevenido demência.
Transcrição revisada
Vitamina D em altas doses poderia estar relacionada a melhor desempenho cognitivo? Um pequeno estudo encontrou uma associação interessante, mas ainda estamos muito longe de transformar esse resultado em recomendação de tratamento.
A pesquisa avaliou 54 adultos com comprometimento cognitivo leve diagnosticado ou suspeito e distúrbios do sono. A idade média dos participantes era de aproximadamente 67 anos.
Aqueles que relataram consumir pelo menos 5.000 UI de vitamina D por dia apresentaram pontuação significativamente maior no Montreal Cognitive Assessment, o MoCA, um teste utilizado para avaliar diferentes domínios da cognição.
Depois de considerar fatores como idade, sexo, escolaridade, índice de massa corporal e tipo de vitamina D utilizada, o grupo de maior dose apresentou uma diferença ajustada de aproximadamente 3,8 pontos no MoCA em relação às pessoas que não utilizavam suplementação.
Doses inferiores a 5.000 UI por dia não apresentaram associação estatisticamente significativa. Também não foi demonstrada diferença significativa entre o uso das formas D2 e D3.
O resultado interessa porque o comprometimento cognitivo leve pode representar uma fase intermediária entre o envelhecimento cognitivo habitual e quadros de demência em parte das pessoas. Distúrbios do sono também são frequentes nesse grupo e podem se relacionar à saúde cerebral.
Mas o estudo não mostrou que vitamina D melhorou a memória ou preveniu Alzheimer. Os participantes não foram sorteados para receber diferentes doses e não foram acompanhados antes e depois da suplementação. A quantidade ingerida foi informada pelos próprios participantes, e os pesquisadores nem sequer mediram os níveis sanguíneos de vitamina D.
Há ainda um alerta importante: 5.000 UI por dia ultrapassam o limite superior tolerável de 4.000 UI estabelecido para adultos em recomendações nutricionais gerais. Doses superiores podem ser utilizadas em situações clínicas específicas, mas exigem avaliação individualizada. Portanto, essa descoberta é uma pista para futuros ensaios clínicos — não uma recomendação para automedicação.
Quem participou do estudo?
O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Emory University e publicado na revista Sleep Medicine.
Foram incluídos 54 participantes com 50 anos ou mais. A idade média era de 67,2 anos e aproximadamente 46% eram homens.
Para participar, a pessoa precisava apresentar diagnóstico de comprometimento cognitivo leve ou suspeita baseada na pontuação do MoCA, além de evidências de distúrbio do sono.
O sono foi avaliado por questionários validados. Cerca de 98% dos participantes foram classificados como pessoas com sono de má qualidade pelo Pittsburgh Sleep Quality Index, enquanto aproximadamente 43% apresentavam sonolência diurna excessiva pela escala de Epworth.
A quantidade de vitamina D utilizada foi informada pelos próprios participantes e dividida em categorias:
• menos de 1.000 UI/dia: 4 pessoas;
• 1.000 a 1.999 UI/dia: 5 pessoas;
• 2.000 a 4.999 UI/dia: 6 pessoas;
• 5.000 UI/dia ou mais: 12 pessoas.
Os demais participantes não relataram suplementação diária de vitamina D.
Um número importante: apenas 12 participantes estavam na categoria de 5.000 UI ou mais. Portanto, a associação que mais chamou atenção veio de um subgrupo muito pequeno.
O que o teste MoCA realmente mostrou
O Montreal Cognitive Assessment, ou MoCA, é um instrumento de rastreamento que avalia diferentes componentes da função cognitiva, incluindo memória, atenção, linguagem, funções executivas e habilidades visuoespaciais.
A pontuação média de toda a amostra foi de aproximadamente 24 pontos.
Os pesquisadores construíram um modelo estatístico para avaliar se a dose de vitamina D estava associada ao resultado do teste, considerando também idade, sexo, índice de massa corporal, escolaridade e tipo de suplemento utilizado.
A única categoria de dose associada significativamente a melhor desempenho foi a de 5.000 UI por dia ou mais. A diferença ajustada em relação ao grupo que não utilizava vitamina D foi de aproximadamente 3,78 pontos.
Já as categorias abaixo de 5.000 UI não apresentaram associação estatisticamente significativa.
Também não houve evidência estatística suficiente para afirmar que vitamina D3 tenha produzido resultados cognitivos diferentes da vitamina D2.
Entretanto, o resultado da categoria de maior dose apresentou valor de p próximo ao limite convencional de significância e veio de somente 12 participantes. Os próprios autores o descrevem como um achado exploratório e preliminar.
Por que não podemos concluir que vitamina D melhorou a cognição
O principal motivo está no desenho da pesquisa. Este foi um estudo transversal.
Em termos simples, os pesquisadores observaram simultaneamente quanto suplemento cada pessoa relatava utilizar e qual era sua pontuação cognitiva. Não sabemos como era o desempenho dessas pessoas antes de iniciarem a vitamina D.
Portanto, existem várias explicações alternativas.
Pessoas com melhor função cognitiva podem, por exemplo, aderir melhor a tratamentos e suplementos, cuidar mais da própria saúde ou apresentar características clínicas e sociais que não foram completamente capturadas pelo modelo estatístico.
Os autores reconhecem explicitamente a possibilidade de causalidade reversa: em vez de a suplementação produzir melhor cognição, pessoas cognitivamente mais preservadas poderiam ter maior probabilidade de utilizar suplementos em doses elevadas.
Outra limitação importante é que o consumo foi obtido por autorrelato. Não houve confirmação objetiva da dose utilizada.
Mais importante ainda: o estudo não mediu a concentração sanguínea de 25-hidroxivitamina D, principal marcador utilizado para avaliar o estado de vitamina D no organismo.
Assim, não sabemos se as doses relatadas realmente se traduziram em maiores concentrações sanguíneas ou se participantes apresentavam deficiência antes da suplementação.
O estudo encontrou associação, não tratamento: ninguém foi sorteado para receber 5.000 UI, não houve grupo placebo e não foi demonstrada melhora cognitiva ao longo do tempo.
Por que sono, vitamina D e comprometimento cognitivo despertam interesse
O comprometimento cognitivo leve, frequentemente chamado pela sigla inglesa MCI, descreve uma situação em que existe declínio cognitivo maior do que seria esperado para a idade, mas sem necessariamente comprometer de maneira importante a independência funcional.
Algumas pessoas permanecem estáveis durante anos. Outras melhoram. E uma parcela pode evoluir para doenças neurodegenerativas, incluindo Alzheimer.
Distúrbios do sono também são comuns nesse grupo e vêm sendo estudados como possível fator relacionado ao envelhecimento cerebral, inflamação e progressão do comprometimento cognitivo.
A vitamina D, por sua vez, participa de diversos processos biológicos e seus receptores estão presentes em tecidos do sistema nervoso. Estudos observacionais já relacionaram baixos níveis da vitamina a diferentes desfechos neurológicos, embora isso não seja suficiente para provar que suplementá-la previna essas condições.
Por isso, investigar uma população que apresenta simultaneamente alteração cognitiva e distúrbio do sono é interessante. O estudo atual fornece uma pista para definir melhor quais perguntas devem ser respondidas em futuros ensaios clínicos.
5.000 UI por dia é uma dose segura para qualquer pessoa?
Não devemos interpretar o resultado dessa forma.
Para adultos, as referências nutricionais gerais estabelecem um limite superior tolerável de 4.000 UI de vitamina D por dia. Esse limite não representa uma fronteira a partir da qual toxicidade necessariamente ocorrerá, mas uma quantidade acima da qual o uso habitual sem supervisão exige maior cautela.
Doses maiores podem ser utilizadas clinicamente em situações específicas, por exemplo durante tratamento individualizado de deficiência, sempre levando em consideração níveis sanguíneos, condições clínicas e duração do tratamento.
Excesso de vitamina D pode provocar hipercalcemia e hipercalciúria e, em situações importantes, causar sintomas gastrointestinais, fraqueza, alterações neurológicas e comprometimento renal.
Curiosamente, os próprios autores chamam atenção para essa questão e defendem que a próxima etapa seja realizar estudos em que a administração de vitamina D seja controlada prospectivamente, com avaliação objetiva do estado da vitamina e acompanhamento dos resultados cognitivos.
Portanto, a mensagem prática não é “5.000 UI protegem a memória”. A mensagem científica é: um pequeno estudo encontrou um sinal suficientemente interessante para justificar um ensaio clínico adequado.
FAQ rápida
Vitamina D melhora a memória?
Este estudo não demonstrou melhora causada pela vitamina D. Encontrou apenas uma associação entre doses relatadas de 5.000 UI ou mais e melhor desempenho global no MoCA.
Quanto maior a dose, melhor foi a cognição?
Não foi demonstrada uma relação progressiva desse tipo. As categorias abaixo de 5.000 UI não tiveram associação significativa, e apenas 12 participantes estavam na categoria de maior dose.
Vitamina D3 foi melhor do que D2?
O estudo não encontrou diferença estatisticamente significativa entre as duas formas para o desempenho cognitivo.
O estudo mostrou prevenção da doença de Alzheimer?
Não. Não houve acompanhamento da progressão para demência nem avaliação de incidência de Alzheimer.
Devo tomar 5.000 UI de vitamina D para proteger o cérebro?
Não com base neste estudo. Essa dose está acima do limite superior tolerável estabelecido para uso nutricional geral em adultos e suplementação em doses elevadas deve ser individualizada e acompanhada profissionalmente.
Biomarcador, associação ou tratamento? Aprenda a interpretar a evidência
Estudos como esse mostram por que interpretar ciência exige distinguir associação, mecanismo biológico e evidência clínica de benefício. No curso A Genômica que Todo Médico Precisa Saber, profissionais da saúde aprendem a integrar genética, genômica e medicina de precisão com raciocínio crítico e aplicação clínica.
Veja também os demais conteúdos disponíveis em cursos e aulas da Geneaxis.
Continue explorando a Geneaxis
• Vitamina D e saúde do cérebro: estudo liga níveis na meia-idade a menor tau décadas depois
• Uma boa noite de sono é essencial para a formação da memória
• Sono profundo e exercício físico fortalecem a memória
• Vitamina D no câncer de mama: estudo sugere melhor resposta à quimioterapia
• Leia mais conteúdos científicos no blog da Geneaxis
Veja também este conteúdo nas redes da Geneaxis
• Instagram: ver publicação
• YouTube: assistir ao Short
• LinkedIn: ver publicação científica
• X: ver publicação em X
• TikTok: ver vídeo no TikTok
Referência científica principal:
Zhou S, Sudeshna P, Trotti LM, Bliwise D, Pak V. Vitamin D supplement intake is associated with better cognition in persons with sleep disturbance and mild cognitive impairment .
Sleep Medicine. 2026;146:108960. PMID: 42287971.
Divulgação institucional:
Emory University — High-dose vitamin D may improve cognition among those at risk of dementia .
Referência sobre limites de ingestão:
National Academies of Sciences, Engineering, and Medicine. Dietary Reference Intakes for Calcium and Vitamin D .
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica. O estudo foi transversal, envolveu apenas 54 participantes e não demonstrou que vitamina D trate comprometimento cognitivo, melhore memória ou previna doença de Alzheimer. Não utilize doses elevadas de vitamina D com essa finalidade sem avaliação profissional.
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


