Medicamentos associados a alterações duradouras no microbioma intestinal

Medicamentos podem alterar o microbioma intestinal por anos, mostra estudo

Resumo do tema: um estudo com mais de 2.500 participantes encontrou associações entre o microbioma intestinal e medicamentos utilizados anos antes da coleta das amostras. Além dos antibióticos, apareceram sinais relacionados a antidepressivos, benzodiazepínicos, betabloqueadores e medicamentos que reduzem a acidez do estômago. Os resultados sugerem que a história terapêutica pode deixar uma assinatura prolongada no intestino, embora grande parte da evidência ainda seja observacional.

Transcrição revisada

O comprimido acaba, a receita fica no passado, mas o microbioma intestinal talvez ainda carregue uma espécie de memória daquela exposição.

Um estudo realizado na Estônia combinou amostras do microbioma intestinal de 2.509 participantes com registros eletrônicos detalhados de medicamentos utilizados nos anos anteriores.

Como esperado, o uso anterior de antibióticos esteve associado a diferenças na composição das bactérias intestinais. A surpresa foi encontrar associações prolongadas também com medicamentos que não foram desenvolvidos para atacar microrganismos.

Entre eles estavam antidepressivos, benzodiazepínicos e outros psicolépticos, betabloqueadores e inibidores da bomba de prótons, utilizados para reduzir a acidez gástrica.

Os benzodiazepínicos chamaram particularmente a atenção. Como classe, apresentaram associações com o microbioma que persistiam anos depois do uso e, em algumas análises, alcançavam magnitude comparável à observada com antibióticos de amplo espectro.

Mesmo medicamentos da mesma classe não produziram necessariamente o mesmo padrão. O alprazolam, por exemplo, apresentou uma associação mais ampla com o microbioma do que o diazepam.

Em um grupo menor de 328 participantes, os pesquisadores conseguiram analisar uma segunda amostra intestinal após alguns anos. Mudanças ocorridas depois do início ou da interrupção de determinados medicamentos seguiram padrões semelhantes aos encontrados na análise principal, reforçando a possibilidade de participação direta dos fármacos.

Isso não significa que todas essas mudanças sejam prejudiciais, permanentes ou clinicamente relevantes. A própria doença tratada, alimentação, idade, estilo de vida e outros medicamentos também podem influenciar o microbioma.

A principal mensagem talvez seja metodológica: quando pesquisadores tentam relacionar bactérias intestinais a uma doença, considerar apenas os remédios que a pessoa usa naquele momento pode não ser suficiente. O microbioma talvez carregue também vestígios da nossa história terapêutica.

Como os pesquisadores reconstruíram anos de uso de medicamentos

O trabalho utilizou a Estonian Microbiome Cohort, vinculada ao Biobanco da Estônia. Os 2.509 participantes tinham entre 23 e 89 anos, com idade média próxima de 50 anos.

As amostras fecais foram analisadas por metagenômica shotgun, técnica capaz de estudar o material genético presente em uma comunidade microbiana e estimar quais microrganismos estão presentes e em que abundância.

A grande vantagem do estudo foi poder combinar esses dados com registros eletrônicos de saúde. Em vez de perguntar apenas quais medicamentos cada participante utilizava no momento da coleta, os pesquisadores conseguiram reconstruir exposições farmacológicas ocorridas anos antes.

Isso permitiu analisar três dimensões que geralmente ficam escondidas em estudos do microbioma:

uso atual do medicamento;
uso passado, mesmo após sua interrupção;
exposição cumulativa, considerando quantas vezes determinados medicamentos haviam sido utilizados.

Para algumas classes, quanto maior a exposição acumulada, maior também era a diferença observada no microbioma — um possível efeito aditivo.

Não foram apenas os antibióticos

Antibióticos naturalmente ocupam lugar especial nessa discussão porque foram desenvolvidos justamente para matar ou impedir o crescimento de bactérias.

Há anos sabemos que um tratamento antimicrobiano pode alterar profundamente a comunidade intestinal e que algumas dessas alterações podem persistir depois do final da terapia.

O resultado mais interessante deste trabalho foi mostrar que o fenômeno não parece estar restrito aos antibióticos.

Associações com uso passado foram identificadas para diferentes grupos de medicamentos, incluindo:

• antibióticos;
• antidepressivos;
• benzodiazepínicos e outros psicolépticos;
• inibidores da bomba de prótons;
• betabloqueadores;
• glicocorticoides e outras classes em determinadas análises.

Existem diversas formas pelas quais um medicamento destinado às células humanas pode, indiretamente ou diretamente, modificar as bactérias intestinais. Mudanças no pH, trânsito intestinal, secreções, metabolismo e imunidade podem alterar o ambiente onde esses microrganismos vivem.

Além disso, estudos experimentais anteriores já demonstraram que centenas de medicamentos não antibióticos podem interferir diretamente no crescimento de determinadas bactérias intestinais em laboratório.

Importante: encontrar uma mudança no microbioma não significa automaticamente encontrar um dano. Uma comunidade bacteriana “diferente” não é necessariamente pior, e o estudo não demonstrou que todas as assinaturas observadas provoquem doença.

O resultado inesperado dos benzodiazepínicos

Entre os medicamentos não antibióticos, os benzodiazepínicos produziram um dos resultados mais marcantes.

Os autores observaram associações abrangentes tanto com a composição global do microbioma quanto com a presença e abundância de diferentes espécies microbianas.

As assinaturas relacionadas ao uso anterior de benzodiazepínicos permaneciam detectáveis vários anos depois e foram descritas como comparáveis aos efeitos de carryover de classes de antibióticos de amplo espectro.

Isso não significa que benzodiazepínicos tenham sobre o intestino o mesmo mecanismo ou as mesmas consequências clínicas dos antibióticos. A comparação se refere à extensão estatística das associações encontradas no microbioma.

Outro resultado mostrou por que simplesmente analisar a “classe” de um medicamento pode ser insuficiente.

Tanto alprazolam quanto diazepam são benzodiazepínicos. Entretanto, o alprazolam apresentou uma associação mais ampla com o microbioma do que o diazepam.

Isso sugere que medicamentos utilizados para finalidades semelhantes podem ter interações muito diferentes com o ecossistema intestinal.

O estudo não justifica trocar ou interromper medicamentos com base no microbioma. Saber se essas diferenças possuem consequências relevantes para saúde, eficácia terapêutica ou efeitos adversos exigirá estudos específicos.

Uma segunda amostra ajudou a testar a direção da relação

Estudos observacionais enfrentam um problema clássico: é difícil determinar se o medicamento alterou o microbioma ou se a própria doença que levou à prescrição explica parte das diferenças.

Para melhorar essa análise, 328 participantes forneceram uma segunda amostra fecal. O intervalo mediano entre as duas avaliações foi de aproximadamente 4,4 anos.

Os pesquisadores puderam então observar pessoas que iniciaram determinados tratamentos entre as duas coletas e comparar a transformação do microbioma ao longo do tempo.

Foram encontrados sinais após início de medicamentos como alguns antibióticos de amplo espectro, inibidores da bomba de prótons, benzodiazepínicos e glicocorticoides.

Os autores também analisaram interrupções de tratamento e encontraram padrões consistentes com efeitos prolongados para algumas exposições.

Como o grupo longitudinal era muito menor e os participantes não haviam sido randomizados para receber os medicamentos, isso ainda não constitui prova definitiva de causalidade.

Entretanto, observar mudanças temporais acompanhando início e interrupção dos tratamentos torna biologicamente mais plausível que pelo menos parte das associações seja realmente produzida pelos fármacos.

Por que isso é tão importante para pesquisas do microbioma

Grande parte das pesquisas atuais procura identificar uma espécie de “assinatura microbiana” de diferentes doenças.

Imagine, por exemplo, que pessoas com determinada doença apresentem mais de uma bactéria específica. Uma interpretação possível seria que a bactéria esteja relacionada ao processo da doença.

Mas existe outra possibilidade: essas pessoas podem ter utilizado determinado medicamento repetidamente nos últimos anos — e ser o medicamento, e não a doença, o responsável por parte daquela assinatura.

Por isso, analisar somente os medicamentos utilizados no dia em que as fezes foram coletadas pode não ser suficiente.

Os autores defendem que a história medicamentosa de longo prazo deve ser considerada como possível fator de confusão em estudos que relacionam microbioma e doenças.

Essa preocupação também é relevante quando interpretamos testes comerciais de microbioma. Uma única amostra representa um ecossistema extremamente complexo influenciado por alimentação, idade, ambiente, doenças, medicamentos, trânsito intestinal e muitos outros fatores.

Por enquanto, ainda estamos longe de conseguir olhar para uma lista de bactérias e reconstruir com precisão toda a história clínica ou definir, de forma generalizada, qual seria o microbioma “ideal” de cada indivíduo.

FAQ rápida

Medicamentos realmente podem alterar o microbioma por anos?
O estudo encontrou associações entre uso ocorrido anos antes e a composição atual do microbioma. Para alguns medicamentos, análises longitudinais reforçaram a possibilidade de um efeito direto, mas não demonstraram causalidade definitiva.

Somente antibióticos produzem esse efeito?
Não. Também foram encontradas associações prolongadas com antidepressivos, benzodiazepínicos, inibidores da bomba de prótons, betabloqueadores e outras classes.

Benzodiazepínicos alteram o intestino tanto quanto antibióticos?
Os autores encontraram associações muito amplas, e alguns efeitos de carryover foram comparáveis aos de antibióticos de amplo espectro. Isso não significa que os mecanismos ou consequências clínicas sejam equivalentes.

Essas mudanças fazem mal?
Não sabemos necessariamente. O estudo identificou diferenças na composição microbiana, mas uma diferença no microbioma não significa automaticamente prejuízo à saúde.

Devo interromper algum medicamento para proteger meu microbioma?
Não. O estudo não oferece base para suspensão ou troca de tratamentos. Medicamentos devem ser utilizados de acordo com indicação clínica e modificados apenas com orientação profissional.

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Referência científica principal:
Aasmets O, Taba N, Krigul KL, Andreson R, Estonian Biobank Research Team, Org E. A hidden confounder for microbiome studies: medications used years before sample collection .
mSystems. 2025;10(10):e00541-25. PMID: 40910778.

Comentário científico relacionado:
Ferretti P. The gut remembers: the long-lasting effect of medication use on the gut microbiome .
mSystems. 2025.

Este conteúdo possui finalidade educativa. As associações encontradas não demonstram que todas as alterações do microbioma sejam prejudiciais ou permanentes e não justificam interrupção, troca ou redução de medicamentos prescritos. A interpretação clínica do microbioma ainda possui limitações importantes.

Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.