Resumo do tema: um estudo com 440 mulheres encontrou associação entre o envelhecimento epigenético de monócitos, células do sistema imunológico, e sintomas emocionais da depressão. O achado pode contribuir para o desenvolvimento futuro de biomarcadores sanguíneos, mas ainda não representa um exame diagnóstico nem permite prever a doença antes dos sintomas.
Transcrição revisada
Cientistas podem ter dado um passo importante rumo ao desenvolvimento de biomarcadores sanguíneos capazes de complementar a avaliação da depressão. Um estudo publicado em The Journals of Gerontology: Series A mostrou que o envelhecimento acelerado de determinadas células do sistema imunológico, chamadas monócitos, está associado a sintomas emocionais e cognitivos da depressão.
Hoje, a depressão é diagnosticada principalmente pela avaliação clínica e pelos sintomas relatados pelo paciente. Ainda não existe um exame de sangue capaz de confirmar ou excluir a doença. Para investigar possíveis marcadores biológicos, os pesquisadores analisaram dados de metilação do DNA e questionários de sintomas depressivos de 440 mulheres, incluindo participantes com e sem HIV.
A equipe utilizou um relógio epigenético específico, chamado MonoDNAmAge, para estimar a idade biológica dos monócitos. Quanto maior a aceleração dessa idade celular, maiores tendiam a ser os sintomas depressivos não somáticos, especialmente a anedonia, caracterizada pela perda de interesse ou prazer nas atividades.
O estudo não demonstrou que o envelhecimento dos monócitos cause depressão e também não avaliou pessoas antes do surgimento dos sintomas. Ainda assim, o achado reforça uma ideia importante: alterações relacionadas à saúde mental podem deixar sinais mensuráveis no sistema imunológico e no funcionamento epigenético das células.
O que o estudo encontrou nos monócitos
O estudo analisou 440 participantes do Women’s Interagency HIV Study: 261 mulheres com HIV e 179 sem HIV. Os pesquisadores compararam os sintomas medidos pela escala CES-D com dois relógios epigenéticos capazes de estimar a idade biológica das células a partir de padrões de metilação do DNA.
A aceleração de idade identificada pelo relógio específico dos monócitos esteve associada aos sintomas depressivos classificados como não somáticos, que incluem aspectos emocionais e cognitivos. A relação mais evidente apareceu com a anedonia. Já o relógio epigenético geral de Horvath não apresentou associação relevante com a gravidade ou os diferentes domínios dos sintomas.
Por que o sistema imunológico pode estar ligado à depressão
Os monócitos fazem parte da imunidade inata e participam da resposta inflamatória. Alterações persistentes nessas células podem influenciar a comunicação entre o sistema imunológico e o cérebro, embora o estudo atual não tenha demonstrado diretamente esse mecanismo.
Os chamados relógios epigenéticos estimam se determinadas células parecem biologicamente mais jovens ou mais velhas do que o esperado para a idade cronológica. Quando essa idade biológica está acelerada, ela pode refletir exposição prolongada a inflamação, estresse ou outros processos que afetam o organismo.
A especificidade do resultado para os monócitos sugere que diferentes tipos celulares podem registrar de maneira distinta os efeitos biológicos associados à depressão.
Ainda não existe um exame de sangue para diagnosticar depressão
Apesar do potencial científico, esse trabalho ainda está distante de validar um exame clínico. Os dados foram analisados em um único momento, o que impede saber se o envelhecimento dos monócitos surgiu antes, durante ou depois dos sintomas depressivos.
Além disso, a amostra foi formada exclusivamente por mulheres, com participação relevante de pessoas vivendo com HIV. Novos estudos precisarão incluir homens, diferentes faixas etárias e populações mais amplas, além de acompanhar os participantes ao longo do tempo.
No futuro, biomarcadores como esse talvez possam complementar a avaliação clínica, ajudar na identificação de diferentes subtipos da depressão ou orientar tratamentos mais individualizados. Por enquanto, o diagnóstico continua dependendo de entrevista clínica cuidadosa e avaliação por profissional qualificado.
FAQ rápida
Já existe exame de sangue para diagnosticar depressão?
Não. O estudo identificou uma associação promissora, mas não validou um teste diagnóstico disponível para uso clínico.
O exame conseguiria detectar depressão antes dos sintomas?
Isso não foi testado. As participantes já haviam respondido a questionários de sintomas depressivos quando as amostras foram analisadas.
O envelhecimento dos monócitos causa depressão?
O estudo mostra associação, não causalidade. Ainda não se sabe se a alteração celular contribui para a depressão ou se é consequência de outros fatores.
Qual foi o sintoma mais associado ao marcador?
A anedonia, definida como perda de interesse ou prazer, apresentou a associação mais evidente.
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Referência científica: 10.1093/gerona/glag083
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


