óleo de peixe em hemodiálise reduziu infarto e AVC.

Óleo de peixe em alta dose reduziu infarto e AVC em pacientes em hemodiálise

Para quem faz hemodiálise, o risco de infarto, AVC e morte cardiovascular é muito alto e, infelizmente, poucas intervenções conseguem diminuir esse perigo de forma convincente. Um grande estudo internacional, o PISCES, publicado no New England Journal of Medicine, testou algo simples, mas em uma dose muito específica: 4 gramas por dia de óleo de peixe, contendo dois tipos de ômega-3, EPA e DHA. Ao longo de cerca de 3,5 anos, quem tomou ômega-3 teve bem menos eventos graves, como infarto, derrame, morte cardíaca e amputações por doença vascular, em comparação com quem recebeu cápsulas placebo feitas com óleo de milho.

O resultado principal chamou atenção pelo tamanho do efeito: a taxa desses eventos caiu cerca de 43% no grupo que recebeu o óleo de peixe, e os desfechos individuais também favoreceram o suplemento. É um achado importante porque, em pacientes com doença renal crônica avançada em diálise, a prevenção cardiovascular costuma ser especialmente difícil e os ganhos clínicos, quando aparecem, costumam ser modestos.

O que o estudo PISCES mostrou na prática

O estudo avaliou pacientes em hemodiálise e comparou o uso de óleo de peixe em alta dose com um placebo. Os pesquisadores observaram redução de eventos cardiovasculares graves, incluindo:

infarto do miocárdio;
AVC;
morte cardiovascular;
amputações por doença vascular.

Isso é particularmente relevante porque pacientes em diálise convivem com inflamação crônica, alterações metabólicas, calcificação vascular e risco trombótico aumentado. Nesse contexto, encontrar uma intervenção relativamente simples, oral e com benefício cardiovascular consistente é algo raro e clinicamente importante.

Segurança: houve aumento claro de sangramento?

Um dos receios frequentes com o uso de ômega-3 em doses altas é o risco de sangramento, especialmente em pessoas que já usam anticoagulantes ou antiplaquetários. Neste estudo, não apareceu um sinal de alerta claro para sangramento grave no grupo que recebeu óleo de peixe. Isso é tranquilizador, mas não elimina a necessidade de avaliação individual.

Em pacientes em hemodiálise, muitas vezes já existem múltiplos fatores que alteram coagulação e risco hemorrágico. Por isso, mesmo diante de um resultado positivo, a decisão de usar ômega-3 em alta dose deve sempre considerar o contexto clínico completo, as medicações em uso e o acompanhamento do nefrologista.

O que esse resultado não significa

A mensagem prática do estudo é bem específica: isso vale para pessoas em hemodiálise, com essa dose alta e nesse contexto clínico. Não é correto generalizar automaticamente os resultados para quem não tem doença renal avançada, nem assumir que “qualquer ômega-3” comprado sem orientação terá o mesmo efeito.

Outro ponto importante é que ômega-3 de farmácia em dose baixa não é a mesma coisa que o esquema testado no estudo. Formulação, dose, pureza e contexto clínico fazem diferença. Para quem faz diálise e ficou curioso, o caminho mais seguro é conversar com o médico assistente sobre risco, benefício, interações e indicação real.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Pacientes em hemodiálise, especialmente em uso de anticoagulantes, antiplaquetários ou múltiplas medicações, não devem iniciar suplementos por conta própria.

Referência científica

Artigo original em New England Journal of Medicine.
DOI: 10.1056/NEJMoa2513032

Assista em vídeo: óleo de peixe em alta dose e hemodiálise

Nefrologia, risco cardiovascular e medicina baseada em evidências

Esse estudo é um bom exemplo de como a medicina baseada em evidências pode trazer avanços concretos mesmo em populações de alto risco, como pessoas em hemodiálise. Também reforça uma ideia importante da medicina de precisão: o mesmo suplemento ou medicamento pode ter valor muito diferente dependendo do perfil do paciente, da dose utilizada e do contexto clínico em que foi testado.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.