por que o mesmo remédio contra o câncer funciona em uns e falha em outros.

Por que o mesmo remédio contra o câncer funciona em uns e falha em outros? A “armadilha” escondida dentro da célula

Um dos grandes mistérios da oncologia é ver dois pacientes com o mesmo tipo de tumor receberem o mesmo tratamento e terem respostas completamente diferentes. Um novo estudo, feito com amostras de tumores de ovário mantidas vivas no laboratório, “fotografou” para onde o medicamento realmente vai dentro do tumor e o resultado foi surpreendente: a distribuição não é uniforme. Em algumas regiões e em algumas células, o remédio chega com força; em outras, quase não aparece. Isso pode significar que parte do tumor recebe uma “dose cheia”, enquanto outra parte recebe uma “dose fraca”, favorecendo falha do tratamento e risco de resistência.

Em outras palavras, o problema não seria apenas qual remédio foi escolhido, mas também como ele se distribui dentro do tumor. Essa ideia é importante porque ajuda a explicar por que, mesmo quando a medicação é adequada e o alvo molecular parece correto, a resposta clínica pode variar tanto de pessoa para pessoa.

O remédio não se espalha do mesmo jeito em todas as células

O estudo mostrou que, dentro de um mesmo tumor, diferentes áreas e diferentes células podem receber quantidades muito distintas do medicamento. Isso cria um cenário em que o tratamento atua de forma intensa em alguns pontos, mas deixa outros relativamente protegidos. Essas células menos expostas podem continuar vivas, adaptar-se e contribuir para a resistência ao tratamento.

Essa heterogeneidade ajuda a entender por que a resposta oncológica é tão variável. Mesmo quando o tumor parece semelhante ao microscópio ou compartilha o mesmo diagnóstico, seu comportamento interno pode ser muito diferente — inclusive no modo como lida com a entrada, retenção e circulação dos fármacos.

A “armadilha” escondida: os lisossomos

A explicação encontrada pelos pesquisadores parece estar em pequenas estruturas da célula chamadas lisossomos, que funcionam como compartimentos de reciclagem. Alguns medicamentos podem ficar presos ali dentro, como se a célula criasse um depósito interno que segura o fármaco e o libera aos poucos. Esse aprisionamento não é necessariamente igual em todas as células do tumor, o que gera uma distribuição desigual da exposição ao tratamento.

O problema é que esse fenômeno pode criar bolsões de alta concentração em algumas células, enquanto outras quase não são atingidas. E nem todos os remédios da mesma classe parecem se comportar da mesma forma. Isso significa que o tumor pode não apenas “resistir” ao tratamento, mas fazer isso de maneira organizada, explorando sua própria arquitetura celular.

O que isso pode mudar na medicina de precisão

O estudo aponta uma possibilidade muito promissora para o futuro: usar a assinatura do tumor — isto é, o jeito como ele organiza essas “bolsinhas” celulares e como expressa determinados genes — para ajudar a prever qual medicamento tem mais chance de funcionar. Em vez de pensar apenas no alvo molecular clássico, a oncologia poderia considerar também como o tumor armazena, sequestra ou distribui o fármaco.

Isso se encaixa perfeitamente no conceito de tratamento personalizado: não basta saber qual é o tumor, é preciso entender como ele funciona por dentro. No futuro, essa abordagem pode ajudar a escolher melhor terapias, evitar drogas com baixa chance de penetração efetiva e aumentar a probabilidade de resposta clínica.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. O estudo foi realizado com material tumoral em ambiente experimental e não representa, por si só, uma mudança imediata na prática clínica.

Referência científica

Artigo original em Nature Communications.
DOI: 10.1038/s41467-026-70558-1

Assista em vídeo: por que o mesmo remédio funciona em uns e falha em outros?

Câncer, distribuição do fármaco e medicina de precisão

Esse estudo reforça uma ideia central da medicina de precisão: dois tumores aparentemente parecidos podem responder de forma muito diferente porque a biologia interna deles também é diferente. Entender como cada tumor recebe, armazena e distribui medicamentos pode ser um passo decisivo para tornar a oncologia mais personalizada e eficaz.

Veja também este conteúdo nas redes da Geneaxis

• Instagram: ver publicação

• YouTube: assistir ao Short

• LinkedIn: ver post científico

• X: ver publicação em X

• TikTok: ver vídeo no TikTok

Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.