terapia gênica para surdez com mutação em OTOF.

Surdez revertida: uma única injeção pode restaurar a audição em semanas

Um avanço impressionante da medicina está transformando o que antes parecia impossível: pessoas com surdez genética voltando a ouvir após uma única injeção. Em um estudo recente, cientistas aplicaram uma terapia gênica diretamente no ouvido interno de pacientes com surdez causada por mutações no gene OTOF. Esse gene é essencial para a comunicação entre o ouvido e o cérebro, e sua falha impede que os sons sejam transmitidos corretamente. Ao inserir uma cópia funcional do gene usando um vírus modificado, os pesquisadores conseguiram restaurar de forma importante a audição dos participantes. O mais surpreendente é que muitos começaram a apresentar melhora já nas primeiras semanas.

O estudo, publicado na Nature Medicine, acompanhou dez pacientes entre 1 e 24 anos, todos com melhora auditiva relevante após o tratamento. As crianças tiveram as respostas mais impressionantes, especialmente entre 5 e 8 anos. Uma menina de 7 anos, por exemplo, recuperou audição suficiente para conversar normalmente com a mãe poucos meses depois da aplicação. Mas adolescentes e adultos também se beneficiaram, o que reforça uma mensagem muito importante: talvez não seja “tarde demais” para esse tipo de intervenção.

Como a terapia gênica restaurou a audição

O tratamento usou um vírus adenoassociado sintético (AAV) como veículo para levar uma versão funcional do gene OTOF ao ouvido interno. A aplicação foi feita por uma única injeção, na região da cóclea. A partir daí, as células passaram a produzir novamente a proteína otoferlina, que é crucial para transmitir os sinais sonoros do ouvido até o cérebro.

Sem essa proteína, o som pode até chegar ao ouvido, mas não consegue ser convertido de forma eficiente em mensagem nervosa. Ao corrigir essa falha, a terapia reabre a via de comunicação auditiva. É por isso que o efeito pode ser tão marcante: não se trata apenas de “amplificar” sons, mas de restaurar um mecanismo biológico central da audição.

Melhora rápida e segurança inicial favorável

Um dos aspectos mais impressionantes do estudo foi a velocidade da resposta. A maior parte do ganho auditivo apareceu já no primeiro mês, e o seguimento de seis meses mostrou melhora significativa em todos os participantes. Em média, o volume mínimo de som percebido caiu de 106 decibéis para 52 decibéis, o que representa uma diferença enorme em termos de vida real.

Outro ponto importante foi a segurança. A terapia foi descrita como bem tolerada, sem eventos adversos graves no seguimento inicial. O efeito colateral mais frequente foi uma redução de neutrófilos, um tipo de glóbulo branco, mas sem sinal de toxicidade grave no período observado. Ainda assim, como todo tratamento novo, o acompanhamento mais longo será essencial para confirmar segurança e durabilidade do benefício.

O que isso pode mudar no futuro

Esse resultado é especialmente importante porque a surdez genética sempre foi vista, em muitos casos, como uma condição sem possibilidade real de reversão biológica. Se estudos maiores confirmarem esses achados, a terapia gênica pode redefinir o futuro do tratamento da perda auditiva hereditária, transformando um cenário de reabilitação em um cenário de correção molecular.

Os pesquisadores também destacam que o OTOF é só o começo. Já existem esforços para desenvolver terapias semelhantes para outros genes ligados à surdez, como GJB2 e TMC1. Esses alvos são mais complexos, mas os resultados atuais mostram que a ideia central funciona: em alguns casos, uma única dose pode transformar silêncio em som.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. A terapia descrita ainda depende de validação em estudos maiores e de acompanhamento mais longo antes de se tornar opção amplamente disponível.

Referência científica

Artigo original em Nature Medicine.
DOI: 10.1038/s41591-025-03773-w

Assista em vídeo: uma injeção pode restaurar a audição?

Terapia gênica, audição e medicina de precisão

Esse estudo é um retrato poderoso da medicina de precisão: identificar a causa genética exata da doença e tratar diretamente esse defeito molecular. Em vez de atuar apenas na reabilitação do sintoma, a terapia tenta restaurar a função biológica perdida. No caso da surdez por mutações em OTOF, isso significa devolver à cóclea a capacidade de transmitir som ao cérebro — uma mudança de paradigma com enorme impacto clínico e humano.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.