perda do cromossomo Y com a idade e impacto em saúde do homem.

O cromossomo Y está “sumindo” em parte das células com a idade e isso pode afetar coração, cérebro e câncer

Por décadas, o cromossomo Y foi tratado como coadjuvante: pequeno, com poucos genes e visto como importante basicamente para sexo biológico e fertilidade. Mas essa história mudou. Hoje sabemos que muitos homens vão perdendo o Y em uma fração das células ao longo da vida, formando um mosaico de células “com Y” e “sem Y”. Essa perda fica mais comum com a idade e pode ser acelerada por fatores como tabagismo. O mais importante é que esse fenômeno vem sendo associado a maior risco de doenças típicas do envelhecimento, como problemas cardiovasculares, câncer e condições neurodegenerativas, além de pior sobrevida em alguns contextos.

Em vez de ser apenas um detalhe genético curioso, a perda do cromossomo Y está se tornando um marcador importante de envelhecimento biológico. Isso ajuda a mudar a forma como enxergamos a saúde do homem: não se trata só de hormônios ou fertilidade, mas também de como alterações cromossômicas adquiridas ao longo da vida podem influenciar inflamação, imunidade, risco cardiovascular e vigilância contra tumores.

O que significa “perder” o cromossomo Y com a idade?

Essa perda não quer dizer que o cromossomo Y desapareça do corpo inteiro, mas sim que ele deixa de estar presente em parte das células. Surge então um mosaicismo: algumas células mantêm o Y, outras não. Esse fenômeno foi por muito tempo considerado um “ruído” do envelhecimento, sem grande importância clínica. Hoje, porém, ele passou a ser visto como algo potencialmente relevante para entender por que certos homens envelhecem com maior carga de doenças.

O fato de a perda do Y aumentar com a idade e ser mais frequente em fumantes sugere que estamos diante de um processo influenciado tanto pelo tempo quanto por exposições ambientais. Ou seja: genética e estilo de vida podem se cruzar de forma bem concreta no envelhecimento masculino.

Por que isso pode afetar coração, cérebro e câncer?

O porquê exato ainda está sendo desvendado, mas algumas peças já apareceram. Em laboratório, células “sem Y” podem ganhar vantagem de crescimento, acumulando-se em certos tecidos. Além disso, há evidência experimental sugerindo um efeito mais direto: em modelos animais, a perda do Y em células do sangue contribuiu para inflamação, fibrose e piora da função cardíaca.

Isso é importante porque coração, cérebro e sistema imune são profundamente influenciados por inflamação crônica e pela qualidade da vigilância imunológica. Se a perda do Y bagunça esses circuitos, faz sentido que ela acabe associada a maior risco de doenças cardiovasculares, pior resposta a danos teciduais, câncer e talvez também maior vulnerabilidade a processos neurodegenerativos.

O cromossomo Y não é “mudo” fora do sistema reprodutivo

Uma das ideias mais importantes que vêm emergindo é que o cromossomo Y não serve apenas para funções ligadas ao sexo biológico. Ele carrega genes e RNAs regulatórios que participam do controle da expressão gênica e da imunidade. Quando ele some em parte das células, essas células podem ficar com menos “cópias funcionais” de reguladores importantes.

Em termos simples, perder o Y pode significar perder também parte do ajuste fino da célula. Isso pode desorganizar defesa contra infecções, reparo tecidual e vigilância contra tumores. É um lembrete de que, mesmo pequeno, o cromossomo Y pode ter impacto muito mais amplo do que se pensava.

A boa notícia: prevenção continua entrando no jogo

Ainda não existe uma intervenção específica para “corrigir” a perda do cromossomo Y, mas há um ponto prático importante: parte do risco parece caminhar junto com hábitos modificáveis, especialmente o tabagismo. Isso transforma o tema em algo bem mais concreto do que uma curiosidade genética distante. Fatores de estilo de vida podem influenciar a velocidade com que certos processos biológicos do envelhecimento aparecem.

A mensagem final é dupla: de um lado, a ciência está aprendendo que o envelhecimento masculino pode envolver perdas cromossômicas adquiridas com impacto real em saúde. De outro, continua valendo a base da prevenção: não fumar, controlar fatores cardiovasculares, manter seguimento médico e encarar a saúde do homem de forma mais ampla e menos simplificada.

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica. Resultados sobre perda do cromossomo Y ainda estão em expansão na literatura e não significam, por si só, diagnóstico ou previsão individual de doença.

Fonte comentada

Matéria explicativa em The Conversation:
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Assista em vídeo: o cromossomo Y está sumindo em parte das células?

Envelhecimento, mosaicismo e medicina de precisão

Esse tema mostra bem como a medicina de precisão está ampliando nossa visão sobre envelhecimento: não basta olhar apenas para colesterol, pressão ou glicose. Alterações cromossômicas adquiridas ao longo da vida, como a perda do Y em parte das células, podem se tornar peças importantes para entender risco individual, inflamação, câncer e doenças cardiovasculares. É a genética deixando de ser apenas herança e entrando também no campo do que muda com o tempo.

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Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.