Resumo do tema: um estudo com quase 150 mil casos de câncer de mama invasivo nos Estados Unidos identificou aumento rápido da doença em diferentes populações asiático-americanas, com crescimento especialmente preocupante entre mulheres com menos de 50 anos, casos diagnosticados em estágio avançado e alguns subtipos mais agressivos. A tendência é clara, mas suas causas ainda não são conhecidas.
Transcrição revisada
Durante muito tempo, mulheres norte-americanas de origem asiática apresentaram taxas de câncer de mama inferiores às observadas entre mulheres brancas. Essa diferença, porém, está diminuindo rapidamente — principalmente entre as mais jovens.
Um estudo publicado na JAMA Network Open analisou 148.608 casos de câncer de mama invasivo diagnosticados entre 2000 e 2022 em diferentes populações asiático-americanas, nativas havaianas e das ilhas do Pacífico nos Estados Unidos.
O aumento foi particularmente preocupante entre mulheres com menos de 50 anos. Nos anos mais recentes, a incidência nessa faixa etária cresceu rapidamente e, considerando essas populações em conjunto, chegou a níveis comparáveis aos observados entre mulheres brancas não hispânicas.
Alguns grupos apresentaram tendências ainda mais acentuadas. Entre mulheres chinesas com menos de 50 anos, a incidência cresceu aproximadamente 4,6% ao ano entre 2017 e 2022. Entre vietnamitas jovens, o aumento foi de cerca de 4,3% ao ano a partir de 2016.
Uma explicação possível seria simplesmente o aumento do rastreamento: quanto mais mamografias são realizadas, mais tumores são encontrados. Mas os resultados não combinam completamente com essa hipótese. Se esse fosse o principal motivo, esperaríamos encontrar sobretudo mais tumores em estágios iniciais.
Em vez disso, alguns dos crescimentos mais rápidos ocorreram justamente nos casos diagnosticados em estágio distante, quando o câncer já havia se espalhado para outros órgãos. Entre mulheres chinesas, por exemplo, esses casos aumentaram aproximadamente 4,5% ao ano.
Outro sinal importante apareceu nos subtipos tumorais. Entre mulheres chinesas, a incidência de câncer de mama triplo-negativo, geralmente associado a comportamento mais agressivo, aumentou pouco mais de 6% ao ano entre 2017 e 2022.
Mudanças nos padrões reprodutivos, na alimentação e no estilo de vida podem estar contribuindo. Fatores ambientais, sociais, migratórios e biológicos também podem participar. Até agora, porém, nenhuma dessas hipóteses explica completamente o fenômeno.
O estudo revela, portanto, uma tendência epidemiológica importante, mas não sua causa. E seus resultados se referem especificamente a populações dos Estados Unidos. Compreender por que esses casos estão aumentando será fundamental para desenvolver estratégias melhores de prevenção, avaliação de risco e diagnóstico precoce.
Quase 150 mil casos revelaram tendências muito diferentes entre os grupos
Os pesquisadores utilizaram dados do programa SEER, do National Cancer Institute dos Estados Unidos, provenientes de 14 estados e referentes ao período entre 2000 e 2022.
Foram incluídas sete populações asiático-americanas específicas — indianas ou paquistanesas, chinesas, filipinas, japonesas, coreanas, laocianas ou cambojanas e vietnamitas — além de populações nativas havaianas e de outras ilhas do Pacífico.
Essa separação é importante porque agrupar todas essas populações sob uma única categoria esconde diferenças enormes. No próprio estudo, a incidência global variou mais de três vezes entre os grupos analisados.
Entre as mulheres asiático-americanas consideradas em conjunto, a incidência de câncer de mama invasivo aumentou aproximadamente 2,34% ao ano entre 2012 e 2022, ritmo superior ao observado em outros grandes grupos raciais e étnicos dos Estados Unidos.
Os maiores crescimentos recentes na incidência geral foram observados entre mulheres chinesas e vietnamitas, superando 4% ao ano em determinados períodos.
O aumento entre mulheres jovens chama atenção
Dos casos analisados, 44.234 ocorreram antes dos 50 anos, correspondendo a aproximadamente 30% dos diagnósticos.
Entre mulheres asiático-americanas, nativas havaianas e das ilhas do Pacífico com menos de 50 anos, a incidência aumentou aproximadamente 2,9% ao ano entre 2016 e 2022.
Em 2021 e 2022, a incidência precoce nessas populações consideradas em conjunto tornou-se comparável à observada entre mulheres brancas não hispânicas da mesma faixa etária.
As tendências foram particularmente marcantes entre:
• mulheres chinesas com menos de 50 anos: +4,57% ao ano entre 2017 e 2022;
• mulheres vietnamitas com menos de 50 anos: +4,30% ao ano entre 2016 e 2022;
• mulheres coreanas com menos de 50 anos: +2,86% ao ano entre 2000 e 2022;
• mulheres japonesas com menos de 50 anos: +2,41% ao ano entre 2000 e 2022.
O câncer de mama em pessoas jovens merece atenção particular porque pode ocorrer antes do início habitual de programas populacionais de rastreamento e, em determinadas situações, aumenta a importância da avaliação de história familiar e predisposição hereditária.
Importante: pertencer a uma população asiática não significa, por si só, ter uma síndrome de câncer hereditário. Avaliação genética é baseada no conjunto da história pessoal, idade ao diagnóstico, características do tumor e histórico familiar.
Maior rastreamento não parece explicar sozinho o fenômeno
A introdução ou ampliação de programas de rastreamento pode elevar temporariamente a incidência de um câncer porque passa a encontrar tumores que anteriormente permaneceriam sem diagnóstico por mais tempo.
Se esse fenômeno fosse a principal explicação, seria esperado um aumento desproporcional de tumores localizados e detectados precocemente.
No estudo, porém, a incidência aumentou em diferentes estágios da doença e o crescimento mais pronunciado no conjunto das populações analisadas ocorreu justamente no câncer em estágio distante.
Entre mulheres chinesas, a incidência de doença à distância aumentou aproximadamente 4,52% ao ano. Entre indianas e paquistanesas, o crescimento foi de aproximadamente 4,02% ao ano.
Os próprios autores consideram esse padrão uma evidência contra a hipótese de que o aumento recente seja explicado simplesmente por maior realização de mamografias.
Além disso, pesquisas anteriores mostraram que alguns grupos asiático-americanos apresentavam taxas de rastreamento mamográfico menores do que mulheres brancas não hispânicas, reforçando a complexidade do problema.
Até tumores mais agressivos estão aumentando
O câncer de mama não é uma única doença. Os tumores apresentam diferentes características moleculares que influenciam comportamento, prognóstico e tratamento.
O subtipo mais frequente no estudo continuou sendo o câncer com receptores hormonais positivos e HER2 negativo. Esse grupo também apresentou aumento de incidência em praticamente todas as populações asiático-americanas avaliadas.
Entretanto, os pesquisadores também encontraram crescimento de subtipos mais agressivos.
Entre as mulheres chinesas, a incidência de câncer de mama triplo-negativo aumentou 6,17% ao ano entre 2017 e 2022. Também foram observados aumentos significativos entre mulheres indianas ou paquistanesas, filipinas e vietnamitas.
Esse achado é especialmente relevante porque o câncer triplo-negativo não apresenta receptores de estrogênio, progesterona ou HER2 e, em média, possui comportamento clínico mais agressivo e menos opções de terapias direcionadas a esses receptores.
Afinal, por que o câncer de mama está aumentando?
Essa é justamente a pergunta que o estudo ainda não consegue responder.
Tendências semelhantes vêm sendo observadas em diferentes países da Ásia e já foram relacionadas à urbanização, industrialização e mudanças de estilo de vida.
Entre as hipóteses estão mudanças na alimentação, obesidade, atividade física, idade da primeira gestação, número de filhos, amamentação, idade da menarca e outros fatores hormonais e reprodutivos.
Migração, exposições ambientais, condições socioeconômicas, características dos bairros, acesso aos serviços de saúde e fatores biológicos também podem contribuir.
Entretanto, os dados disponíveis sobre esses fatores são insuficientes quando as diferentes populações asiáticas são analisadas separadamente. Os autores destacam inclusive que estudos anteriores encontraram padrões que não foram completamente explicados por fatores de risco já conhecidos.
Portanto, seria prematuro atribuir o aumento a uma única exposição, comportamento ou característica genética.
Um cuidado essencial: estes são dados epidemiológicos dos Estados Unidos. Eles não permitem concluir que mulheres de ascendência asiática vivendo no Brasil apresentem exatamente as mesmas taxas ou tendências.
FAQ rápida
O câncer de mama realmente está aumentando entre mulheres asiático-americanas?
Sim. O estudo identificou crescimento significativo da incidência em praticamente todas as populações asiático-americanas avaliadas, com tendências particularmente rápidas nos anos mais recentes.
O aumento é maior entre mulheres jovens?
O crescimento antes dos 50 anos foi um dos principais sinais de alerta. Entre chinesas e vietnamitas jovens, os aumentos recentes superaram 4% ao ano.
Mais mamografias explicam o aumento?
Provavelmente não por completo. Houve crescimento expressivo também dos cânceres diagnosticados em estágio distante, padrão que não seria esperado se o fenômeno resultasse principalmente de maior rastreamento.
O câncer de mama triplo-negativo também aumentou?
Sim. Entre mulheres chinesas, sua incidência aumentou aproximadamente 6,17% ao ano entre 2017 e 2022, e aumentos também foram observados em outros grupos asiático-americanos.
Isso significa que existe uma causa genética específica?
Não. O estudo não identificou uma causa genética para o aumento. A tendência provavelmente envolve uma combinação complexa de fatores ambientais, sociais, reprodutivos, comportamentais e possivelmente biológicos ainda pouco compreendidos.
Há casos de câncer de mama na sua família?
Diagnóstico de câncer de mama em idade jovem, vários familiares com câncer, câncer de mama em homens, câncer de ovário, pâncreas ou próstata em determinados padrões familiares e algumas características tumorais podem indicar a necessidade de avaliação para predisposição hereditária.
Na consulta de genética, a Geneaxis integra história pessoal, histórico familiar e características dos tumores para estimar risco e definir quando testes genéticos ou estratégias individualizadas de acompanhamento podem ser indicados.
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Referência científica principal:
Gomez SL, McKinley M, Chan M, et al. Breast Cancer Incidence in Asian American, Native Hawaiian, and Pacific Islander Populations, 2000-2022 .
JAMA Network Open. 2026;9(6):e2621250.
Divulgação institucional:
UC San Francisco — Invasive Breast Cancer Is Rising Fast in Asian American Women .
Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Os resultados são epidemiológicos, referem-se a populações dos Estados Unidos e não devem ser utilizados isoladamente para estimar o risco individual de câncer de mama.
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


