Cálcio e vitamina D previnem quedas e fraturas? Revisão de 69 ensaios clínicos

Cálcio e vitamina D previnem quedas e fraturas? O que mostra a revisão do BMJ

Resumo: Uma revisão sistemática publicada no BMJ, com 69 ensaios clínicos e 153.902 participantes, encontrou pouco ou nenhum benefício clinicamente relevante da suplementação rotineira de cálcio, vitamina D ou ambos para prevenir quedas e fraturas na maioria dos adultos estudados.

A combinação de cálcio e vitamina D reduziu discretamente alguns tipos de fratura, mas os benefícios absolutos foram pequenos. Os resultados não devem ser extrapolados automaticamente para pessoas com deficiência nutricional, doenças ósseas específicas, alto risco individual ou em tratamento para osteoporose.

Assista: cálcio e vitamina D realmente evitam fraturas?

Cálcio e vitamina D evitam quedas e fraturas?

Tomar diariamente cálcio ou vitamina D parece uma estratégia simples para proteger os ossos e evitar fraturas. Mas uma grande revisão de ensaios clínicos questiona o benefício dessa suplementação quando utilizada rotineiramente para prevenção.

Pesquisadores reuniram 69 ensaios clínicos randomizados, envolvendo 153.902 adultos, e compararam cálcio, vitamina D ou a combinação dos dois com placebo ou ausência de suplementação.

A conclusão, publicada no BMJ, foi que os benefícios para prevenção de quedas e fraturas foram pequenos ou inexistentes na maior parte das populações estudadas.

A vitamina D isolada não reduziu o risco de fraturas em geral. O mesmo ocorreu com o cálcio isolado, para o qual também não foi demonstrada redução clara.

A combinação de cálcio e vitamina D apresentou pequenas reduções estatisticamente significativas para alguns tipos de fratura.

Em números absolutos, porém, a diferença correspondeu aproximadamente a uma fratura a menos a cada 100 pessoas tratadas para qualquer fratura e a três fraturas de quadril a menos a cada 1.000 pessoas.

Embora estatisticamente detectáveis, esses efeitos ficaram abaixo dos limiares definidos previamente pelos pesquisadores como clinicamente relevantes.

Além disso, um único estudo realizado em uma população de risco muito elevado teve grande influência sobre esses resultados. Quando esse estudo foi retirado das análises, as diferenças deixaram de ser estatisticamente significativas para alguns dos principais desfechos.

Para quedas, nenhuma das estratégias apresentou benefício importante.

Existe, porém, uma ressalva fundamental: a maioria dos participantes vivia na comunidade e não apresentava alto risco de quedas ou fraturas. Pessoas em tratamento farmacológico para osteoporose também foram excluídas.

Portanto, a revisão não demonstra que cálcio e vitamina D sejam desnecessários. Ambos são nutrientes essenciais. A pergunta investigada foi outra: suplementá-los rotineiramente previne quedas e fraturas em adultos?

Para a maioria das pessoas estudadas, o benefício parece ser pequeno ou inexistente.

Como foi realizada a revisão?

A pesquisa foi uma revisão sistemática com meta-análise de ensaios clínicos randomizados, um desenho particularmente importante quando queremos avaliar se uma intervenção realmente produz determinado benefício.

Foram incluídos estudos com adultos que compararam:

  • cálcio isolado com placebo ou ausência de tratamento;
  • vitamina D isolada com placebo ou ausência de tratamento;
  • cálcio associado à vitamina D com placebo ou ausência de tratamento.

Os participantes não poderiam estar recebendo medicamentos específicos para tratamento da osteoporose.

O principal desfecho foi a ocorrência de qualquer fratura. Os pesquisadores também avaliaram fraturas de quadril, fraturas não vertebrais, fraturas vertebrais, número de pessoas que caíram e número total de quedas.

A revisão em números

  • 69 ensaios clínicos randomizados.
  • 153.902 participantes.
  • 71,2 anos de idade mediana entre os estudos.
  • 87% dos estudos incluíram pessoas vivendo na comunidade.
  • 73% não estudaram populações classificadas como de alto risco.
  • 2 anos de seguimento mediano dos ensaios.

Vitamina D isolada preveniu fraturas ou quedas?

Para a vitamina D isolada, a resposta foi bastante consistente: não houve redução relevante nas fraturas ou nas quedas.

Para qualquer fratura, 36 ensaios com mais de 92 mil participantes resultaram em risco relativo de 1,00.

Em outras palavras, na média dos estudos, a frequência de fraturas foi praticamente igual entre quem recebeu vitamina D e quem não recebeu.

A mesma ausência de benefício importante foi observada para:

  • fratura de quadril;
  • fraturas não vertebrais;
  • fraturas vertebrais;
  • risco de sofrer uma queda;
  • número total de quedas.

A certeza da evidência foi considerada alta para vários desses desfechos.

Isso significa que vitamina D não é importante?

Não. Vitamina D é essencial para o metabolismo ósseo e para diferentes funções do organismo. O estudo avaliou se oferecer suplementação rotineiramente previne quedas e fraturas — não se deficiências de vitamina D devem ou não ser diagnosticadas e tratadas.

E o cálcio isolado?

O cálcio isolado também não apresentou redução clara nas fraturas em geral.

Nos 11 ensaios que forneceram dados para esse desfecho, envolvendo 9.067 participantes, o risco relativo foi de 0,91, com intervalo de confiança de 95% entre 0,81 e 1,01.

Como o intervalo inclui a possibilidade de ausência de efeito, não é possível afirmar que o cálcio isoladamente tenha reduzido as fraturas.

Também não houve benefício claro para fraturas não vertebrais, fraturas vertebrais ou quedas.

Para fraturas de quadril, a estimativa foi muito imprecisa e a certeza da evidência considerada muito baixa, não permitindo uma conclusão confiável.

Cálcio e vitamina D juntos fizeram alguma diferença?

A combinação apresentou resultados um pouco diferentes.

Foram encontradas pequenas reduções estatisticamente significativas para algumas categorias de fraturas:

Benefício absoluto observado

Qualquer fratura:
aproximadamente 1 fratura a menos para cada 100 pessoas tratadas.

Fratura de quadril:
aproximadamente 3 fraturas a menos para cada 1.000 pessoas tratadas.

Fraturas não vertebrais:
aproximadamente 1,6 fratura a menos para cada 100 pessoas tratadas.

Essas diferenças foram estatisticamente detectáveis, mas permaneceram abaixo dos limiares que os pesquisadores haviam definido como benefícios clinicamente importantes.

Há ainda outra questão.

Um ensaio realizado em uma população de risco particularmente elevado exerceu influência desproporcional sobre os resultados.

Quando esse estudo foi retirado da meta-análise, a redução deixou de ser estatisticamente significativa para qualquer fratura, fratura de quadril e fraturas não vertebrais.

Isso reforça a importância de distinguir entre um pequeno efeito observado na média dos estudos e a expectativa de benefício para uma pessoa específica.

E quanto à prevenção de quedas?

Nenhuma das estratégias demonstrou redução clinicamente importante das quedas.

Com vitamina D isolada, o risco relativo de queda foi praticamente idêntico entre os grupos.

Na combinação cálcio + vitamina D, houve uma estimativa de pequena redução, mas o resultado ficou no limite da significância estatística e foi considerado pelos autores compatível com pouco ou nenhum benefício.

Isso faz sentido quando consideramos que cair é um evento complexo.

O risco de queda depende de muitos fatores além da saúde óssea, incluindo:

  • força muscular;
  • equilíbrio;
  • mobilidade e marcha;
  • visão;
  • doenças neurológicas;
  • pressão arterial;
  • medicamentos em uso;
  • obstáculos e riscos presentes no ambiente doméstico.

Por isso, estratégias de prevenção frequentemente precisam abordar vários desses fatores simultaneamente.

Para quem esses resultados não devem ser automaticamente generalizados?

Esta é provavelmente a principal limitação prática da revisão.

Apesar do grande número total de participantes, a maioria dos ensaios estudou pessoas relativamente independentes vivendo na comunidade.

Apenas 28% dos estudos avaliaram populações classificadas como de alto risco para quedas ou fraturas.

Somente uma pequena proporção recrutou exclusivamente pessoas com osteoporose, fratura prévia ou histórico de quedas.

Além disso, a deficiência grave de vitamina D não era frequente nas populações estudadas.

Portanto, os resultados não devem ser interpretados como evidência de que suplementação seja desnecessária em pessoas com:

  • deficiência documentada de vitamina D;
  • ingestão inadequada de cálcio;
  • osteomalácia ou outras doenças ósseas específicas;
  • osteoporose que exija manejo individualizado;
  • uso prolongado de corticosteroides;
  • situações clínicas específicas nas quais cálcio ou vitamina D façam parte do tratamento.

A pergunta correta não é “vitamina D funciona?”

O benefício de uma intervenção depende de quem recebe, por qual motivo, em qual dose e para qual desfecho. Esta revisão responde especificamente à pergunta sobre suplementação rotineira para prevenir quedas e fraturas — não a todas as possíveis indicações de cálcio ou vitamina D.

O que realmente ajuda a prevenir quedas e fraturas?

A prevenção de fraturas não depende de uma única intervenção.

A própria revisão destaca que exercícios e modificações ambientais estão entre as estratégias não farmacológicas com resultados mais promissores para prevenção de quedas.

Programas estruturados podem trabalhar força muscular, equilíbrio, mobilidade e marcha, enquanto a avaliação do ambiente permite identificar obstáculos e situações que favorecem quedas.

Para pessoas com osteoporose e risco aumentado de fraturas, existem ainda tratamentos farmacológicos específicos cuja indicação depende da avaliação clínica individual.

Também é importante avaliar alimentação, consumo adequado de cálcio, status de vitamina D quando indicado, visão, medicamentos, saúde neurológica, força muscular e histórico prévio de quedas e fraturas.

Em outras palavras, prevenção eficaz tende a exigir uma abordagem individualizada — e não simplesmente acrescentar um comprimido à rotina.

Perguntas frequentes

Vitamina D previne fraturas?

Nesta revisão de ensaios clínicos, vitamina D isolada não reduziu o risco de fraturas em adultos. Isso não significa que pessoas com deficiência de vitamina D não devam receber tratamento quando houver indicação.

Cálcio previne osteoporose e fraturas?

O cálcio é essencial para a saúde óssea, mas a suplementação de cálcio isoladamente não demonstrou redução clara de fraturas nesta revisão. A necessidade de suplementação depende da alimentação, do risco individual e das condições clínicas de cada pessoa.

Tomar cálcio e vitamina D juntos reduz fraturas?

A combinação apresentou pequenas reduções em alguns tipos de fratura, mas os benefícios absolutos ficaram abaixo dos limiares definidos pelos pesquisadores como clinicamente importantes. Um estudo em população de risco muito elevado também influenciou substancialmente os resultados.

Vitamina D ajuda a prevenir quedas em idosos?

A revisão não encontrou benefício clinicamente relevante da suplementação de vitamina D para prevenir quedas. A prevenção de quedas depende de múltiplos fatores, incluindo força muscular, equilíbrio, mobilidade, medicamentos e segurança ambiental.

Quem tem osteoporose deve parar de tomar cálcio ou vitamina D?

Não. Esta revisão não avaliou pessoas recebendo tratamento farmacológico para osteoporose e seus resultados não devem ser utilizados para interromper tratamentos prescritos. Qualquer mudança deve ser discutida individualmente com o profissional responsável.

Quem tem vitamina D baixa precisa suplementar?

A revisão não foi desenhada para responder se deficiências individuais devem ser tratadas. Corrigir uma deficiência documentada é uma situação clínica diferente de oferecer suplementação rotineiramente a uma população sem deficiência conhecida apenas para tentar prevenir fraturas.

Ciência para decisões de saúde mais bem informadas

Uma mesma vitamina ou suplemento pode produzir resultados diferentes dependendo da população, da dose, do desfecho estudado e da existência ou não de uma deficiência.

No Blog Geneaxis, analisamos novas pesquisas com atenção à qualidade da evidência, aos números absolutos e às limitações de cada estudo.

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Referências científicas

Revisão sistemática:
Massé O, Mercurio CM, Dupuis S, et al. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls: systematic review and meta-analysis. BMJ. 2026;393:e088050.

Artigo científico original — DOI: 10.1136/bmj-2025-088050

Editorial associado:
Pillay J, Reynolds DL, Thériault G. Calcium, vitamin D, or combined supplementation to prevent fractures and falls. BMJ. 2026;393:s913.

Editorial do BMJ — DOI: 10.1136/bmj.s913

Financiamento e conflitos de interesse:

A revisão não recebeu financiamento específico. Os autores declararam ausência de financiamento da indústria para o trabalho. Alguns autores relataram pagamentos anteriores de organizações não industriais por atividades educacionais relacionadas a osteoporose, prevenção de fraturas, cálcio ou vitamina D, conforme declaração publicada no artigo.

Aviso: Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica individualizada. Não interrompa cálcio, vitamina D, medicamentos para osteoporose ou outros tratamentos prescritos com base apenas nesses resultados. Deficiência nutricional, osteoporose, uso de corticosteroides e outras condições podem exigir condutas específicas.

Conteúdo elaborado por:

Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130

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Dr. Caio
Robledo Quaio

CRM-SP: 129.169
RQE: 39130

Médico (90a turma) pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), com residência em Genética Médica pelo Hospital das Clínicas da USP e Doutorado em Ciências pela USP. Possui Título de Especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica, Acreditação Internacional pela Educational Commission for Foreign Medical Graduates, dos EUA, Observrship em Doenças Metabólicas pelo Boston Children’s Hospital e Harvard Medical School e foi Visiting Academic da University of Otago, da Nova Zelândia. É autor e coautor de dezenas de estudos científicos em genética, genômica, doenças raras, câncer hereditário, entre outros temas da genética. Atualmente, é Médico Geneticista do Laboratório Clínico do HIAE e do Projeto Genomas Raros, ambos vinculados ao Hospital Israelita Albert Einstein, e Pesquisador Pós-Doutorando da Faculdade de Medicina da USP.

Dra. Helena
Strelow Thurow

CRBIO-01: 100852

Graduação em Ciências Biológicas pela Universidade Católica de Pelotas, mestrado em Biologia Celular e Molecular pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Doutorado em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (2011). Realizou Pós Doutorado em Epidemiologia e Pós-Doutorado PNPD em Biotecnologia, ambos na Universidade Federal de Pelotas. Posteriormente, realizou Pós-Doutorado na Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo. Foi Analista de Laboratório no setor de NGS do Hospital Israelita Albert Einstein e atualmente é Analista de Pesquisa na Beneficência Portuguesa de São Paulo. Tem ampla experiência na área de Biologia Molecular e Biotecnologia.