Resumo: Um estudo longitudinal da Yale University mostra que envelhecer não significa necessariamente apresentar declínio contínuo. Entre participantes com avaliações cognitivas e físicas, 45,15% melhoraram na cognição, na velocidade de caminhada ou em ambas ao longo de até 12 anos.
Crenças mais positivas sobre o envelhecimento também estiveram associadas a maior probabilidade de melhora. Entretanto, o estudo é observacional e não demonstra que pensar positivamente cause melhor saúde. Na média da população, ainda houve declínio com o tempo; a principal descoberta é que as trajetórias individuais são muito mais diversas do que essa média sugere.
Assista: envelhecer significa necessariamente perder capacidades?
Envelhecer não significa apenas perder capacidades
Quando pensamos em envelhecimento, frequentemente imaginamos uma trajetória inevitável de perda de memória, força e capacidade física.
Um estudo longitudinal conduzido por pesquisadores da Yale University mostra que a realidade é mais complexa.
Os cientistas analisaram dados do Health and Retirement Study, uma grande pesquisa longitudinal representativa da população adulta dos Estados Unidos, e acompanharam participantes por períodos de até 12 anos.
A cognição foi avaliada com uma medida global que incluía memória imediata, memória tardia e habilidades matemáticas.
A função física foi medida principalmente pela velocidade de caminhada, um indicador amplamente utilizado em geriatria por estar relacionado à mobilidade, independência funcional e diferentes desfechos de saúde.
Entre os participantes que possuíam medidas dos dois domínios, 45,15% apresentaram melhora na cognição, na velocidade de caminhada ou em ambas entre a avaliação inicial e a última avaliação disponível.
Quando analisados separadamente, 31,88% melhoraram cognitivamente e 28,00% aumentaram sua velocidade de caminhada.
Isso não significa que a maioria das pessoas melhora ao envelhecer.
Quando os pesquisadores calcularam a média de todos os participantes, houve declínio tanto da cognição quanto da velocidade de caminhada.
O ponto central é diferente: a média populacional pode esconder trajetórias individuais de melhora.
Os pesquisadores encontraram ainda outra associação interessante.
Pessoas que apresentavam crenças mais positivas sobre o próprio envelhecimento no início do acompanhamento tiveram maior probabilidade de melhorar cognitivamente e fisicamente ao longo dos anos.
Essa associação permaneceu presente mesmo depois de considerar diferentes características demográficas, sociais, psicológicas e de saúde.
Entretanto, o estudo é observacional.
Ele não demonstra que simplesmente “pensar positivo” provoque melhora do cérebro ou do corpo, nem que atitudes otimistas substituam atividade física, prevenção, reabilitação ou cuidados médicos.
Os resultados sustentam uma mensagem mais cuidadosa: declínio não é a única trajetória possível durante o envelhecimento, e estereótipos negativos sobre a velhice talvez não reflitam todo o potencial de adaptação e melhora que continua existindo nas fases mais avançadas da vida.
Como foi realizado o estudo?
O trabalho foi conduzido por Becca Levy, da Yale School of Public Health e do Departamento de Psicologia da Yale University, e Martin Slade, da Yale School of Medicine.
Os pesquisadores utilizaram dados do Health and Retirement Study (HRS), uma pesquisa nacional norte-americana que acompanha adultos a cada dois anos.
As crenças sobre envelhecimento foram avaliadas inicialmente em 2008 ou 2010, dependendo do participante.
A partir desse ponto, os pesquisadores acompanharam a trajetória cognitiva e física por períodos que variaram de 2 a 12 anos.
O estudo em números
- 11.314 participantes na análise cognitiva.
- 50 a 99 anos na amostra cognitiva no início do acompanhamento.
- 4.638 participantes na análise da velocidade de caminhada.
- 65 a 99 anos na amostra física.
- Até 12 anos de acompanhamento.
- 8,04 anos de acompanhamento médio na análise cognitiva.
- 8,54 anos na análise física.
- 76,43% permaneceram no estudo durante dez anos ou mais.
Como os pesquisadores mediram melhora cognitiva?
A função cognitiva foi avaliada pela versão de 27 pontos do Telephone Interview for Cognitive Status (TICS).
Esse instrumento avalia diferentes aspectos da cognição, incluindo:
- memória de curto prazo;
- evocação tardia;
- habilidades matemáticas;
- desempenho cognitivo global.
Para a análise principal, qualquer pontuação final superior à pontuação inicial foi classificada como melhora.
Por essa definição, 31,88% dos participantes apresentaram melhora cognitiva.
Como pequenas diferenças podem resultar de variação natural de um teste, os pesquisadores fizeram uma análise adicional mais rigorosa.
Quando exigiram aumento superior a um ponto no TICS, 22,50% dos participantes ainda apresentavam melhora cognitiva.
Além disso, entre aqueles classificados como tendo melhorado na análise principal, aproximadamente 72% ganharam pelo menos dois pontos.
Isso reduz a possibilidade de interpretar todo o achado como simples oscilação mínima na pontuação dos testes.
Por que velocidade de caminhada é uma medida importante?
A função física foi avaliada por um teste simples: caminhar 2,5 metros em velocidade habitual.
Os participantes faziam duas tentativas e os pesquisadores consideravam a melhor velocidade obtida.
A velocidade de caminhada é frequentemente utilizada em geriatria porque integra vários componentes da saúde, incluindo:
- força muscular;
- equilíbrio;
- coordenação;
- função neurológica;
- capacidade cardiovascular;
- mobilidade geral.
Ela também apresenta associação com risco de incapacidade, hospitalização e mortalidade.
No estudo, 28% dos participantes melhoraram sua velocidade de caminhada durante o acompanhamento.
Em uma análise mais conservadora, que exigia melhora superior a 5 cm/s, a proporção ainda foi de 26,71%.
Entre os participantes classificados inicialmente como tendo melhorado, aproximadamente 77% apresentaram ganho de pelo menos 5 cm/s.
Se tantas pessoas melhoraram, por que associamos envelhecimento a declínio?
Este talvez seja o aspecto mais interessante do estudo.
Quando os pesquisadores analisaram todos os participantes como um único grupo, ocorreu aquilo que normalmente esperamos encontrar em estudos de envelhecimento.
Ao longo do acompanhamento, a pontuação cognitiva média diminuiu aproximadamente 1,39 ponto.
A velocidade de caminhada média caiu cerca de 11,69 cm por segundo.
Portanto, no conjunto da população, houve declínio.
Mas a média não descreve a trajetória de todas as pessoas.
Uma média pode esconder trajetórias diferentes
Uma população pode apresentar declínio médio mesmo quando uma parcela relevante de seus integrantes permanece estável ou melhora. O estudo não demonstra que envelhecer produza melhora na maioria das pessoas; ele mostra que o declínio individual não é inevitável.
Essa distinção é particularmente importante na medicina.
Assumir antecipadamente que uma pessoa mais velha necessariamente perderá função pode influenciar expectativas sobre prevenção, reabilitação e potencial de recuperação.
E se considerarmos também quem permaneceu estável?
Os pesquisadores fizeram uma segunda análise acrescentando às pessoas que melhoraram aquelas cujo desempenho permaneceu igual ao longo do período.
Para cognição, 51,06% permaneceram estáveis ou melhoraram.
Para velocidade de caminhada, essa proporção foi de 37,56%.
Portanto, a ideia de que “mais da metade não piorou” é válida especificamente para o desfecho cognitivo.
Também é interessante que os resultados permaneceram presentes quando os pesquisadores restringiram a análise a participantes que já apresentavam função normal no início.
Entre aqueles com cognição normal inicialmente, 27,74% melhoraram. Entre participantes com velocidade de caminhada considerada normal, 23,08% ainda apresentaram melhora.
Isso sugere que o fenômeno não decorreu apenas da recuperação de pessoas que começaram o estudo com algum déficit.
O que crenças sobre envelhecimento têm a ver com saúde?
Os pesquisadores avaliaram as crenças sobre envelhecimento por meio de cinco itens da Attitude Toward Aging Scale, parte da Philadelphia Geriatric Center Morale Scale.
As perguntas exploravam ideias como sentir-se menos útil com a idade ou permanecer tão satisfeito com a vida quanto anteriormente.
Depois de inverter os itens negativos, a pontuação variava de 5 a 30, e valores maiores representavam crenças mais positivas sobre envelhecimento.
Os pesquisadores então investigaram se essa pontuação inicial previa a trajetória funcional ao longo dos anos.
Após ajustes estatísticos, cada ponto adicional na escala esteve associado a:
- OR 1,04 para melhora cognitiva (IC95% 1,00–1,08);
- OR 1,09 para melhora da velocidade de caminhada (IC95% 1,02–1,17).
As análises consideraram fatores como idade, sexo, raça e etnia, escolaridade, estado civil, sintomas depressivos, problemas de sono, doenças cardiovasculares, hipertensão ou diabetes, presença de APOE ε4, isolamento social e duração do acompanhamento.
Associação não significa causa
O estudo mostra que crenças mais positivas sobre envelhecimento precederam e estiveram associadas a maior probabilidade de melhora. Ele não demonstra que modificar pensamentos, isoladamente, faça alguém caminhar mais rápido ou melhorar sua cognição.
Como uma crença poderia influenciar a saúde?
Essa pesquisa faz parte de uma linha de investigação que propõe que estereótipos culturais sobre envelhecimento podem ser internalizados ao longo da vida e, posteriormente, influenciar comportamentos e respostas psicológicas.
Existem diferentes mecanismos possíveis.
Uma pessoa que considera a perda funcional inevitável pode, por exemplo, ter menor expectativa de recuperação, evitar atividade física, abandonar precocemente programas de reabilitação ou interpretar sintomas como consequências inevitáveis da idade.
Em sentido oposto, expectativas mais favoráveis poderiam aumentar autoeficácia, participação em atividades, busca por prevenção e adesão a estratégias de saúde.
Estudos anteriores também investigaram relações entre percepções sobre envelhecimento, resposta ao estresse e diferentes marcadores biológicos.
Entretanto, o estudo atual não mediu mecanismos biológicos capazes de explicar a associação encontrada.
Portanto, não podemos afirmar que determinada crença alterou diretamente cérebro, músculos ou outros tecidos dos participantes.
Quais são as principais limitações?
A primeira é que se trata de um estudo observacional.
Os participantes não foram sorteados para desenvolver crenças positivas ou negativas. Portanto, apesar dos ajustes estatísticos, outros fatores podem participar da associação.
A segunda é a possibilidade de causalidade reversa.
Pessoas que já percebem melhor saúde, maior autonomia ou maior potencial de recuperação podem desenvolver naturalmente expectativas mais favoráveis sobre envelhecer.
A terceira é que as crenças sobre envelhecimento foram avaliadas em um momento inicial. Elas podem ter se modificado ao longo dos anos.
Outro ponto importante é que as análises cognitivas e físicas utilizaram amostras diferentes.
A amostra cognitiva tinha 11.314 participantes entre 50 e 99 anos, enquanto o teste de caminhada foi realizado apenas a partir dos 65 anos, em 4.638 pessoas.
Por fim, embora o estudo tenha identificado melhora individual, a trajetória média da população ainda foi de declínio.
Principal mensagem
Envelhecimento aumenta o risco de perdas cognitivas e físicas, mas essas perdas não ocorrem da mesma maneira em todas as pessoas. Uma parcela relevante da população permaneceu estável ou melhorou durante anos de acompanhamento. Crenças positivas sobre envelhecimento estiveram associadas a trajetórias mais favoráveis, mas ainda não sabemos em que medida elas são causa, consequência ou parte de um conjunto mais amplo de fatores.
O que isso muda na forma de pensar a velhice?
Talvez a principal implicação do estudo não seja recomendar “pensamento positivo”.
É combater a ideia de que deterioração funcional seja inevitável e, portanto, que prevenção ou recuperação deixem de valer a pena depois de determinada idade.
Exercício, reabilitação, controle de doenças crônicas, sono adequado, alimentação, participação social, estímulo cognitivo e acompanhamento médico continuam sendo componentes fundamentais do envelhecimento saudável.
Mas expectativas também podem influenciar como pessoas, famílias e até profissionais de saúde interpretam o potencial de recuperação de alguém mais velho.
Combater o preconceito etário pode, portanto, ter valor não apenas social, mas também ajudar a evitar que possibilidades reais de prevenção, reabilitação e autonomia sejam descartadas precocemente.
Perguntas frequentes
É possível melhorar cognitivamente depois dos 65 anos?
Sim. O estudo identificou uma parcela relevante de participantes que melhorou em testes cognitivos ao longo do acompanhamento. Isso não significa que todas as pessoas melhorarão nem elimina o risco de declínio cognitivo associado à idade.
Quantas pessoas melhoraram no estudo?
Entre participantes com medidas cognitivas e físicas, 45,15% melhoraram na cognição, na velocidade de caminhada ou em ambas. Separadamente, 31,88% apresentaram melhora cognitiva e 28% melhoraram a velocidade de caminhada.
Pensar positivamente sobre envelhecer melhora a saúde?
O estudo encontrou associação entre crenças mais positivas sobre envelhecimento e maior probabilidade de melhora cognitiva e física. Como a pesquisa foi observacional, não é possível concluir que as crenças tenham sido a causa direta dessas melhorias.
Por que a velocidade de caminhada é importante no envelhecimento?
A velocidade de caminhada integra diferentes componentes da função física e está relacionada à mobilidade, independência, risco de incapacidade, hospitalização e outros desfechos de saúde.
A maioria das pessoas melhora ao envelhecer?
Não. Na média, os participantes apresentaram piora cognitiva e redução da velocidade de caminhada. O estudo mostra que essa média esconde trajetórias individuais diferentes e que uma parcela expressiva pode permanecer estável ou melhorar.
O que ajuda a envelhecer com mais saúde?
Não existe uma única estratégia. Atividade física, prevenção e tratamento de doenças, alimentação adequada, sono, participação social, estímulo cognitivo, reabilitação quando necessária e acompanhamento de saúde continuam sendo fundamentais. O novo estudo acrescenta que expectativas e estereótipos sobre o envelhecimento também merecem ser investigados.
Envelhecimento é uma trajetória, não um destino único
Genética, ambiente, comportamento, saúde mental e condições clínicas interagem ao longo de toda a vida. Estudos longitudinais ajudam a mostrar por que pessoas da mesma idade podem apresentar trajetórias de envelhecimento profundamente diferentes.
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Referência científica
Levy BR, Slade MD. Aging Redefined: Cognitive and Physical Improvement with Positive Age Beliefs. Geriatrics. 2026;11(2):28.
Artigo científico original — DOI: 10.3390/geriatrics11020028
Financiamento e conflitos de interesse:
O estudo recebeu financiamento do National Institute on Aging dos Estados Unidos (R01AG067533). Segundo os autores, o financiador não participou do desenho, análise ou interpretação dos dados, redação do manuscrito ou decisão de publicação.
Os autores declararam não possuir conflitos de interesse.
Aviso: Este conteúdo possui finalidade educativa. O estudo é observacional e não demonstra que pensamento positivo previna declínio cognitivo ou físico. Crenças sobre envelhecimento não substituem atividade física, prevenção, reabilitação, tratamento de doenças ou acompanhamento médico individualizado.
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


