Resumo: Uma revisão de cinco ensaios clínicos randomizados, com 238 participantes, encontrou resultados mistos sobre o uso de creatina como complemento ao tratamento da depressão. Dois ensaios mostraram benefício quando a creatina foi associada ao escitalopram ou à terapia cognitivo-comportamental, enquanto três não encontraram melhora significativa.
A hipótese é biologicamente interessante porque a creatina participa do metabolismo energético do cérebro. Entretanto, os estudos foram pequenos, duraram apenas quatro a oito semanas e não demonstram que creatina seja um tratamento estabelecido para depressão. Em pessoas com transtorno bipolar, também surgiu um sinal de segurança envolvendo hipomania e mania.
Assista: creatina pode ajudar no tratamento da depressão?
Creatina pode ajudar no tratamento da depressão?
A creatina é conhecida principalmente pelo uso esportivo, por ajudar na disponibilidade rápida de energia para os músculos e contribuir para força e desempenho.
Mas músculos não são os únicos tecidos que dependem intensamente de energia.
O cérebro também utiliza o sistema creatina–fosfocreatina para regenerar ATP, a principal molécula utilizada pelas células para transferir energia.
Isso levou pesquisadores a investigar se a creatina poderia ter algum papel também nos transtornos do humor, especialmente na depressão.
Uma revisão de ensaios clínicos randomizados reuniu cinco estudos, com 238 participantes, nos quais a creatina monohidratada foi acrescentada a tratamentos já estabelecidos.
Quatro ensaios estudaram pessoas com transtorno depressivo maior e um avaliou pacientes com transtorno bipolar durante um episódio depressivo.
Os resultados foram mistos.
Em um estudo com 52 mulheres com depressão maior, a adição de creatina ao antidepressivo escitalopram produziu melhora mais rápida e maior dos sintomas do que escitalopram associado a placebo.
Após oito semanas, 52% das participantes que receberam creatina atingiram remissão segundo a escala HAM-D, comparadas a 25,9% no grupo placebo.
Outro ensaio, com 100 adultos, comparou terapia cognitivo-comportamental associada a 5 g de creatina por dia com a mesma terapia associada a placebo.
Ao final de oito semanas, os participantes que receberam creatina apresentaram menores pontuações no PHQ-9.
Entretanto, os outros três ensaios não demonstraram benefício clínico significativo.
Isso ocorreu em adultos que já não haviam respondido adequadamente a antidepressivos, em adolescentes do sexo feminino em tratamento com ISRS e em pessoas com depressão bipolar.
Portanto, ainda não existe evidência consistente de que creatina funcione como tratamento antidepressivo.
A hipótese permanece interessante porque alterações do metabolismo energético cerebral e da função mitocondrial vêm sendo investigadas em transtornos do humor.
Mas plausibilidade biológica não é o mesmo que eficácia clínica.
E existe ainda uma cautela importante: no estudo com transtorno bipolar, dois participantes que receberam creatina desenvolveram hipomania ou mania.
Isso não prova que a creatina seja a causa, mas torna especialmente inadequado recomendar seu uso por conta própria em pessoas com transtorno bipolar ou histórico de episódios de mania.
Por enquanto, a creatina deve ser vista como uma estratégia experimental e possivelmente complementar — não como substituta de antidepressivos, psicoterapia ou outros tratamentos estabelecidos.
O que a creatina faz no cérebro?
A creatina é uma molécula produzida pelo próprio organismo e também obtida por meio da alimentação, especialmente em alimentos de origem animal.
Dentro das células, ela pode ser convertida em fosfocreatina.
Esse sistema funciona como uma reserva energética rápida.
Quando uma célula precisa de energia, a fosfocreatina pode ajudar a regenerar ATP a partir de ADP por meio da enzima creatina quinase.
De forma simplificada
Creatina → fosfocreatina → regeneração rápida de ATP
Esse sistema ajuda tecidos com alta demanda energética, como músculos e cérebro, a lidar com períodos de maior necessidade de energia.
Isso torna a creatina interessante para a neurociência porque neurônios precisam manter continuamente gradientes elétricos, comunicação sináptica, síntese de neurotransmissores e diversas outras funções metabolicamente exigentes.
Pesquisadores também estudam possíveis relações entre creatina, função mitocondrial, neuroplasticidade e sistemas de neurotransmissores.
Entretanto, essas possíveis vias não demonstram, por si só, que suplementar creatina melhore depressão.
Por que metabolismo energético está sendo estudado na depressão?
A depressão não é causada por um único neurotransmissor, gene ou mecanismo.
É um transtorno complexo no qual podem participar circuitos cerebrais, genética, ambiente, inflamação, sistemas neuroendócrinos, neurotransmissores e metabolismo celular.
Entre as linhas de investigação atuais está a chamada bioenergética cerebral.
Estudos anteriores identificaram alterações relacionadas ao metabolismo mitocondrial e à concentração cerebral de compostos ligados ao sistema creatina–fosfocreatina em algumas pessoas com transtornos do humor.
A partir daí surgiu uma hipótese:
se determinados cérebros apresentam dificuldade em responder às demandas energéticas associadas à depressão, aumentar a disponibilidade de creatina poderia oferecer maior capacidade de tamponamento energético.
Hipótese não é mecanismo comprovado
Os ensaios clínicos disponíveis não demonstraram que a depressão seja causada por falta de creatina nem que aumentar a creatina cerebral necessariamente produza melhora do humor. O metabolismo energético é uma das várias vias atualmente investigadas.
O que a revisão encontrou?
A revisão sistemática identificou seis publicações provenientes de cinco ensaios clínicos randomizados.
A evidência disponível
- 5 ensaios clínicos randomizados.
- 238 participantes no início dos estudos.
- 126 receberam creatina.
- 112 receberam placebo.
- 36 anos de idade média.
- 26% dos participantes eram homens.
- 4 ensaios estudaram depressão maior.
- 1 ensaio estudou depressão bipolar.
- 2 a 10 g/dia de creatina.
- 4 a 8 semanas de duração.
Os estudos eram bastante diferentes entre si.
Alguns testaram creatina junto a antidepressivos, outro junto à terapia cognitivo-comportamental, e as populações variaram de adolescentes a adultos com transtorno bipolar.
Por causa dessa heterogeneidade, os pesquisadores consideraram inadequado combinar os estudos em uma única meta-análise.
Em vez disso, analisaram os resultados individualmente.
O resultado mais promissor: creatina junto ao escitalopram
Um dos ensaios incluiu 52 mulheres com transtorno depressivo maior.
As participantes começaram tratamento com escitalopram e foram randomizadas para receber também creatina ou placebo.
A creatina foi administrada inicialmente em 3 g/dia durante uma semana e depois em 5 g/dia por sete semanas.
Ambos os grupos melhoraram, mas a redução dos sintomas foi maior entre as participantes que receberam creatina.
Na escala HAM-D, ao final de oito semanas, a pontuação média foi:
- 5,4 no grupo creatina;
- 9,8 no grupo placebo.
O tamanho de efeito foi considerado grande, com Cohen’s d de 1,13.
Além disso, utilizando HAM-D abaixo de 8 como critério de remissão:
Remissão após 8 semanas
Creatina + escitalopram: 52%
Placebo + escitalopram: 25,9%
Esse é provavelmente o sinal clínico mais convincente até agora.
Mas ele veio de um único ensaio pequeno, exclusivamente em mulheres, e ainda precisa ser reproduzido de maneira independente.
Creatina também foi testada junto à psicoterapia
Outro ensaio randomizado avaliou 100 adultos com depressão maior.
Nesse estudo, homens representavam aproximadamente metade da amostra.
Todos os participantes receberam sessões individuais de terapia cognitivo-comportamental a cada duas semanas.
Metade recebeu também 5 g de creatina por dia; a outra metade recebeu placebo.
Após oito semanas, a pontuação média no PHQ-9 foi:
- 5,8 no grupo TCC + creatina;
- 11,9 no grupo TCC + placebo.
A diferença foi estatisticamente significativa.
Esse resultado é interessante porque sugere que a possível ação da creatina não precisaria necessariamente estar ligada a um antidepressivo farmacológico.
Porém, novamente, trata-se de apenas um ensaio e o acompanhamento foi curto.
Por que os outros estudos não encontraram benefício?
Os três ensaios restantes não mostraram melhora significativa dos sintomas depressivos em comparação com placebo.
Um estudo envolveu apenas 18 adultos que já apresentavam resposta insuficiente ao tratamento antidepressivo.
Foram testadas doses de até 10 g/dia, mas não houve efeito significativo sobre os escores de depressão em quatro semanas.
Outro estudo incluiu 33 participantes, principalmente adolescentes do sexo feminino com depressão apesar do uso de ISRS.
Doses de 2, 4 e 10 g/dia foram testadas por oito semanas.
A dose de 10 g aumentou em aproximadamente 9,1% a concentração de fosfocreatina no lobo frontal.
Mesmo assim, os sintomas depressivos não melhoraram significativamente em comparação com placebo.
Um biomarcador pode mudar sem o paciente melhorar
O aumento de fosfocreatina cerebral demonstra que a intervenção atingiu um alvo biológico, mas não demonstrou eficácia antidepressiva. Isso ilustra por que mudanças moleculares e benefícios clínicos precisam ser avaliados separadamente.
Por que transtorno bipolar exige cautela especial?
O quinto ensaio avaliou 27 pessoas com transtorno bipolar tipo I ou II durante um episódio depressivo.
Os participantes continuaram utilizando seus tratamentos psiquiátricos e receberam 6 g/dia de creatina ou placebo durante seis semanas.
Não houve diferença significativa entre os grupos nas principais escalas de depressão.
Entretanto, surgiu um sinal de segurança importante.
Entre os participantes expostos à creatina, dois desenvolveram hipomania ou mania durante o estudo.
Outros dois apresentaram aumento dos sintomas depressivos.
O número é muito pequeno para estabelecer causalidade, mas episódios de mudança para mania ou hipomania têm relevância clínica suficiente para justificar cautela.
Atenção especial no transtorno bipolar
Pessoas com transtorno bipolar, histórico de mania ou hipomania não devem interpretar pesquisas sobre creatina como autorização para automedicação. Qualquer suplementação nesse contexto deve ser discutida com o psiquiatra responsável.
Creatina foi bem tolerada nos outros estudos?
De forma geral, não houve diferença consistente entre creatina e placebo na frequência de eventos adversos graves ou na interrupção dos estudos.
Os efeitos relatados incluíram sintomas como:
- náusea;
- desconforto ou dor abdominal;
- diarreia ou constipação;
- cefaleia;
- alteração de apetite;
- tontura;
- alterações do sono.
Na maioria dos ensaios, esses eventos não diferiram significativamente do placebo.
Isso não significa, porém, que a segurança de longo prazo esteja estabelecida especificamente em pessoas com transtornos psiquiátricos.
Os estudos duraram no máximo oito semanas.
Por que ainda não podemos considerar creatina um tratamento para depressão?
A principal limitação é simplesmente a quantidade de evidência disponível.
Apenas cinco ensaios randomizados foram encontrados.
A amostra total foi de somente 238 pessoas.
Além disso:
- a maioria dos participantes era do sexo feminino;
- as populações clínicas eram bastante diferentes;
- as doses variaram de 2 a 10 g por dia;
- os tratamentos associados também variaram;
- os estudos duraram apenas quatro a oito semanas;
- dois ensaios apresentaram baixo risco de viés e três tiveram algumas preocupações metodológicas;
- os resultados foram heterogêneos demais para permitir uma meta-análise.
Portanto, ainda não é possível determinar:
- se a creatina realmente possui efeito antidepressivo;
- qual seria a dose adequada;
- quais pacientes poderiam se beneficiar;
- se o efeito persiste no longo prazo;
- se existem diferenças importantes entre homens e mulheres;
- qual é a segurança em diferentes transtornos psiquiátricos.
Principal mensagem
A creatina apresenta uma hipótese biologicamente plausível e dois pequenos ensaios mostraram sinais clínicos promissores quando utilizada como complemento ao tratamento da depressão. Entretanto, três outros ensaios não demonstraram benefício e a evidência total ainda é insuficiente para recomendar creatina como terapia antidepressiva.
Perguntas frequentes
Creatina trata depressão?
Ainda não está demonstrado. Dois ensaios pequenos encontraram benefício quando a creatina foi adicionada ao escitalopram ou à terapia cognitivo-comportamental, mas três outros estudos não mostraram melhora significativa. As evidências ainda são insuficientes para considerá-la um tratamento estabelecido.
Qual dose de creatina foi estudada para depressão?
Os ensaios incluídos utilizaram creatina monohidratada em doses entre 2 e 10 g por dia, durante quatro a oito semanas. Ainda não existe uma dose comprovadamente eficaz ou recomendada para tratamento da depressão.
Creatina aumenta energia no cérebro?
A creatina participa do sistema creatina–fosfocreatina, que ajuda a regenerar ATP. Um dos ensaios mostrou aumento da fosfocreatina cerebral com doses maiores de creatina, mas essa mudança não produziu melhora clínica significativa naquele estudo.
Creatina pode substituir antidepressivo?
Não. Os estudos positivos avaliaram creatina como complemento a tratamentos como escitalopram ou terapia cognitivo-comportamental. Não há evidência suficiente para utilizá-la como substituta de antidepressivos ou psicoterapia.
Quem tem transtorno bipolar pode usar creatina?
É necessária cautela. Em um pequeno ensaio com depressão bipolar, dois participantes expostos à creatina desenvolveram hipomania ou mania. O resultado não estabelece causalidade, mas torna importante discutir qualquer suplementação com o psiquiatra responsável.
Creatina é segura para pessoas com depressão?
Nos pequenos ensaios realizados até agora, a creatina foi geralmente bem tolerada e os principais eventos adversos foram leves. Entretanto, os estudos foram curtos e não estabelecem segurança de longo prazo especificamente em populações psiquiátricas.
O cérebro também é metabolismo
Genética, neurotransmissores, mitocôndrias, metabolismo energético e ambiente fazem parte de uma rede complexa que influencia o funcionamento cerebral. Novas pesquisas ajudam a ampliar nossa compreensão sobre os transtornos mentais, mas transformar mecanismos promissores em tratamentos exige evidências clínicas robustas.
Para médicos e profissionais da saúde interessados em aprofundar a relação entre biologia molecular, genética, genômica e medicina de precisão, conheça o curso A Genômica que Todo Médico Precisa Saber.
Conheça o cursoContinue explorando a Geneaxis
Referências científicas
Revisão sistemática dos ensaios clínicos:
Fares BJ, Zhou C, Fabiano N, et al. The Effect of Creatine Monohydrate on Mental Disorders: A Systematic Review of Randomized Controlled Trials. Canadian Journal of Psychiatry. 2026.
Revisão sistemática — DOI: 10.1177/07067437251408171
Discussão publicada na Brain Medicine:
Fares BJ, Zhou C, Fabiano N, Wong S. Creatine as a treatment for depression. Brain Medicine. 2026.
Brain Medicine — DOI: 10.61373/bm026l.0039
Financiamento e conflitos de interesse:
A revisão sistemática declarou não ter recebido financiamento específico para sua realização ou publicação.
Alguns autores, entretanto, relataram vínculos relevantes. Entre eles estavam pesquisas patrocinadas pela indústria envolvendo creatina, participação em conselhos científicos de empresas fabricantes de creatina, recebimento de creatina para estudos, consultorias, apoio para apresentações científicas e patentes ou atividades comerciais relacionadas à creatina.
Essas declarações não invalidam os resultados, mas constituem contexto relevante para a interpretação da literatura e reforçam a importância de confirmação independente.
Aviso: Este conteúdo possui finalidade educativa e não substitui avaliação médica ou psiquiátrica individualizada. Creatina não é atualmente um tratamento antidepressivo estabelecido e não deve substituir medicamentos, psicoterapia ou outras intervenções prescritas. Pessoas com transtorno bipolar, histórico de mania ou hipomania devem ter cautela especial e discutir qualquer suplementação com a equipe responsável.
Conteúdo elaborado por:
Dr. Caio Robledo Quaio, MD, MBA, PhD
Médico Geneticista – CRM-SP 129.169 / RQE nº 39130


